| De rotos e esfarrapados
Milton Temer Foi em Os bestializados, livro pequeno de páginas, mas gigantesco na qualidade de formulação, que conheci uma das mais instigantes interpretações do papel secundário que a sociedade, quando desorganizada, acaba ocupando nos grandes episódios históricos. E onde aprendi, também, como nossas elites dominantes são capazes de estabelecer mudanças aparentemente qualitativas no quadro político, social e econômico, de modo a que nada realmente se transforme. Foi assim, na proclamação da República, a partir da ótica do autor do livro, o historiador José Murilo de Carvalho. Mas foi assim, para nos fixarmos em algo mais recente, na chamada transição do regime autoritário de 64 para a Nova República dos anos 80. São os de antes operando mudanças para que o depois não seja em nada distinto, na distribuição dos privilégios. As chamadas transições pelo alto. Pois é. É do mesmo José Murilo que vem mais uma observação importante, em entrevista publicada neste domingo na Folha de S. Paulo, sobre uma nova possibilidade de frustração. Ele chama atenção para um perigo iminente, gerado pelas prioridades do governo Luiz Inácio Lula da Silva, principalmente com a proposta da reforma da Previdência: ''Lula recorre ao apoio do povo numa linha quase populista que estimula uma cisão. Joga o povo, a maioria desorganizada, contra os funcionários públicos, uma das minorias organizadas. No limite, a exacerbação populista pode ter um custo alto para a governabilidade'', avalia. E diz isso numa entrevista em que não poupa a magistratura por defender privilégios, para além de legítimos direitos. Mas posso ir além do que José Murilo explicitou, e extrair uma ilação. Com tal tática, Lula se escafede do desafio essencial, que estamos vendo - perplexos - ser corajosamente enfrentado pelo surpreendente Nestor Kirchner, na Argentina. Nosso problema essencial não está na discussão sobre a Previdência, a partir de um déficit que ninguém realmente comprova. Está, sim, na necessidade imediata de rever as relações de inaceitável submissão que mantemos com supostos credores, por conta de juros e serviços de uma dívida pública nunca auditada. Empenhar esforços para renegociá-la no interesse do Tesouro não é romper acordos. É cumprir com a obrigação mínima de quem venceu uma eleição para superar uma herança corretamente definida como maldita. Para romper com um modelo, ao qual dá continuidade. Estamos batendo recordes de estagnação no crescimento econômico, na perda de valor do salário, no índice de desemprego crescente. Isto ocorre por causa da Previdência ou por causa dos lucros pantagruélicos que o sistema financeiro privado continua obtendo no Brasil, com a política do atual governo? Só para lembrar o grau de rapinagem desse segmento, está prevista para este ano uma receita de R$ 26 bilhões, apenas com as taxas bancárias. Ou seja, somente com a atividade meio, sem nenhuma relação com as lucrativas operações financeiras, os banqueiros vão embolsar, sem risco, R$ 26 bilhões. É correto acatar tal informação sem nenhuma reação pública? Mais ainda, e olhando para o cenário internacional. É correto admitir que a União Européia exija, de seus ricos membros, um máximo de 3% do PIB, de déficit orçamentário, enquanto nós, no sentido contrário, nos exigimos superávits absurdos de 4,25%, exatamente para encher a burra desses agiotas legalizados? Esse é o verdadeiro combate que, dado, nos afirmaria no plano internacional. Sem salamaleques, mas com firmeza de argumentação. É só isso que a intelectualidade da universidade e da pesquisa, hoje transformada em segmento privilegiado que rouba sobrevivência dos cortadores de cana, exige. Porque por isso se bateu, junto com o PT e com Lula, por mais de 20 anos. Que os atuais ocupantes do Palácio do Planalto atentem enquanto é tempo. Se esperam contar com a fidelidade dos novos parceiros, obtida com o sacrifício dos bestializados compagnons de route, atenção. Podem terminar renegados por um, sem a cobertura protetora do outro. Milton Temer é jornalista e ex-senador pelo PT-RJ. [mtemer@uol.com.br]. Publicado no JB em 23 de julho, 2003
Opinião
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