| Governo complicado
Laerte Braga, 19 de julho, 2003 O pior negócio que o governo Lula poderia ter feito fez: tentar ser cópia de FHC no quesito confiabilidade. Isso em relação ao capital estrangeiro, às fórmulas salvadoras do FMI. Confundiu confiabilidade com subserviência. Como resultado, meteu-se numa grande entaladela e até agora não se mostra capaz de sair. Lula não decidiu até a essa altura do jogo se é médio volante de contenção e destruição, ou meia ofensivo, de ataque. Fala para um lado e age para outro. Foi por isso com toda a certeza que Millôr Fernandes assim definiu o seu governo: “Cada vez mais é preciso que o governo Lula formule projetos cujos resultados sejam iguais aos discursos”. A reforma da Previdência é uma grande confusão gerada pelo governo. Lula joga, aí, como volante de destruição. Destrói o que resta dos serviços públicos brasileiros, entrega um filé mignon à iniciativa privada, dentre seus representantes, grandes devedores da dita falida Previdência. E nem por um instante sequer conseguiram provar isso. Não foi refutado, só evasivas e chiliques de José Inocêncio de Oliveira Genoíno, nenhum estudo apresentado de público mostrando que o problema previdenciário no Brasil é de gerenciamento, entre outras coisas, e a velha corrupção. Nem o governo se entende mais. Berzoini já está sendo considerado confuso, fraco, menor que o cargo que ocupa. Palocci tentou jogar no ataque, não fez um gol sequer. Passou para o meio de campo, embolou o jogo. Está agora de zagueiro, na defesa mais vazada desse campeonato de cuspe à distância. O capitão do time, José Dirceu, neste momento só tem olhos para o rebento, candidato a prefeito de Cruzeiro do Oeste. Os sinais de reação nas bancadas da Câmara e Senado aparecem cada vez mais com maior visibilidade. Basta que deputados e senadores dêem um pulo em suas bases e retornem temerosos que dentro de três e anos e meio não consigam passagem de volta para Brasília por mais quatro anos, além desses primeiros. A ação do presidente da Argentina, Nestor Kirchner, tem deixado o seu colega brasileiro desconcertado. Enquanto o brasileiro faz outra enorme confusão entre paz e amor e vassalagem, o portenho fala duro, toma medidas enérgicas e ganha o respeito para si, principalmente de seus cidadãos. O que mais tem acometido a figuras do PT, com mandato, sem mandato, na base, é o receio de admitir que, como estão, as coisas marcham para um brejo sem volta. O fisiologismo político tem capítulos especiais no governo Lula. Por incrível que pareça, enquanto o ministro Ciro Gomes trata de recuperar dinheiro liberado por FHC no apagar das luzes para remunerar bandidos de sua quadrilha. Ou enquanto prefeitos brasileiros enfrentam uma redução inexplicada de seus recursos oriundos do Fundo de Participação dos Municípios, a prefeita de São Paulo, Hebe Marta Suplicy Camargo, rainha do botox segundo o jornalista José Simão, recebe polpudas liberações de olho no segundo mandato. É o viés paulista do governo. Não tem nada a ver com os paulistanos, mas com o jeito coronelesco de fazer política do comando do PT. Além de São Paulo, José Dirceu só enxerga Cruzeiro do Oeste. O segundo semestre será decisivo. Em dezembro vai ser possível jogar fora a última esperança de um governo de esquerda, ou, quem sabe, assistir à reconversão de Lula. Não creio. Pessoalmente acho que continua valendo a afirmação de César Benjamin: “O principal para a direita e os adereços para a esquerda”. A própria política externa faz água depois da viagem para conversar com o governador da Grã Bretanha. Blair e sua terceira via, a via do massacre de civis iraquianos montado em mentiras forjadas em documentos falsos, mete-se agora em escândalo de assassinato. E já está com outro roteiro pronto para passeios, dessa vez na África. Neste momento o governo Lula, em relação ao argentino, por exemplo, é o preferido por onze entre dez banqueiros internacionais. É um governo complicado e enrolado em sua própria teia de provincianismo. sobre o
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Laerte | Opinião
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