Metodologia da contemporaneidade
[ Renato Kress ]
  Todo estudo, ensaio, tratado está baseado numa forma de se almejar, provar ou demonstrar certa possibilidade, perspectiva, crença etc. Enfim, teses que se confrontam com antíteses - desde Popper e seu princípio de falsificabilidade - e geram sínteses. Pelo menos era a pretensão da era moderna. Ou melhor, das ciências modernas. Até então toda forma de conhecimento almejava ter o status de "ciência", receber uma cadeira na academia e os frutos decorrentes.

  E qual a pretensão da contemporaneidade? Da era denominada por alguns de pós-moderna?

  Toda forma de conhecimento, principalmente com o advento da informática - principalmente na questão da sua ferramenta mais poderosa, a internet - e com a velocidade das trocas de informação, possibilitou um acréscimo avassalador ao campo de todas as ciências acadêmicas, estruturadas sob bases que dificilmente suportariam o peso teórico de todo um novo universo de possibilidades que se forma quando da percepção de que não mais podem se portar como pontos polares, mas que simplesmente constituem-se de um domínio no ponto de cruzamento de saberes diversos. Sempre podem ser tomados como instrumentos teóricos, seja como embasamento teórico - ou seja, um campo de partida -, seja para permitir algumas espécies de "saltos quânticos" de outras disciplinas - no campo que tem se tornado o fetiche dos vestibulares e de muitos centros acadêmicos, a interdisciplinalidade - ou mesmo para servir como ponto de chegada - onde pode tanto ser tomado como uma completa inutilidade (em se usar uma ciência para se alcançar o que outra já haja alcançado), como uma forma de melhor estruturar o aval teórico da ciência que já chegara a tal fim, agora alcançado por uma terceira.

  Quando nos propomos a tematizar acerca de fenômenos em curso, estamos sempre sujeitos, mesmo que nem sempre dispostos, a correr o risco de tomar alguns conceitos de que dispomos e emprega-los metaforicamente, por ainda não existirem ferramentas de pensamento mais propícias para compreender a atmosfera pós-moderna. É justamente o fornecimento de uma nova (nova em evidência de efeito, não em existência de fato) perspectiva metodológica que me proponho a discernir neste texto.

  Creio que numa era de mobilidade intensa de informações e de natureza fluídica dos conceitos, símbolos, significados, processos de individuação e de construção quotidiana do olhar e da essência (meramente plástica ou ilustrativa) de subjetividade, o que implica numa reavaliação dos conceitos que elegem a perspectiva sobre a objetividade e por fim, sobre as instituições, seria no mínimo imprudente requerer apenas o aval metodológico fornecido pelas próprias disciplinas dentro dos meios acadêmicos quando da interação com um mundo, com uma realidade, que não obedece, ou que não se permite decifrar - por mais que desejemos ou desejássemos - por essa leitura fragmentada.

  É preciso, mais do que nunca, ter o máximo possível de ferramentas provenientes de outros nichos, sejam eles intra ou extra-acadêmicos, quando se pretende ter visões menos nebulosas sobre qualquer processo na contemporaneidade.

  A busca de leis é parte do projeto epistemológico da modernidade, herança de Comte, que hoje é demonizado pela academia, mas que, ironicamente, não se hão dispensado mais intensos esforços em prol da relativização dessas leis, mesmo depois dos gigantescos avanços que determinadas ciências, como a antropologia, a física e a filosofia, tiveram nesse sentido.

  Em grande parte a lentidão nesse processo deve-se ao medo do niilismo e a uma chaga criada na modernidade: a da necessidade da estruturação com vias a se acessar a "verdade", no caso científica, única, não teológica ou filosófica. Creio que a modernidade haja condicionado a pesquisa científica pelo viés vertical, quando a pós-modernidade preocupa-se, tanto na concepção macro quanto na concepção micro, em primar por uma perspectiva horizontal. Uma perspectiva rizomática, ou em rede.

  Por exemplo poderíamos avaliar o conceito de "adaptação" dentro do campo das ciências. A captura de um conceito, de uma disciplina por outra qualquer, não implica num ato de imitação ou de pura importação - assim como de forma alguma pode ser lida como pobreza de arcabouço teórico próprio, como é de praxe se interpretar -. A migração conceitual é sempre seguida de um processo de transformação, tanto do campo de captura do conceito, quanto do próprio conceito capturado. São ambientes in fluxo, não cristalizações em busca de algum conceito que lhes decifre o ponto de ruptura, mas estruturas plásticas, maleáveis e, por isso mesmo, com maior estabilidade. O exemplo mais prático seria a possibilidade de se quebrar uma pedra de gelo e a tentativa risível de se produzir o mesmo resultado com a água em estado líquido.

  Interface é outro conceito imprescindível no estudo da atualidade. Há pontos em que os organismos científicos - se entendermos os campos como rizomas, como células em ambiente horizontal (num corte epistemológico, por exemplo) que se projetam sobre outros campos científicos e se conjugam por afinidade ou se repelem por discrepâncias teóricas, éticas, etc. - se conjugam e nos quais podem enveredar por novas perspectivas. Dentro da neurologia, por exemplo, já foi comprovado que o maior número de possibilidades a se travar contato estimula a maior interação entre as sinapses a se ligarem o que projeta uma "qualidade de pensamento" mais densa, sujeita a menores refutações. Não porque haja se aprofundado, se enraizado num terreno específico e de ferramentas metodológicas limitadas, mas porque pôde passar incólume por um grande crivo de possibilidades de falseabilidade dentro dos próprios campos de diversas ciências.

  A percepção geográfica, ou melhor, cartográfica, do domínio de cada ciência em particular implica na ampliação das regiões de interlocução entre elas. Por exemplo: a vizinhança com as ciências humanas e sociais constituem todo um outro campo de investigação da psicologia, sem que essa perca o seu caráter específico de psicologia, mas obrigando a ela que leve em consideração fatores que não podem ser analisados por completo apenas por seu arcabouço teórico, mas a partir da interação com outras chaves de leitura do mundo.

  Há que se considerar a perspectiva horizontalizada com vias a interação de diversas ciências e de suas diversas metodologias quando do estudo de qualquer fenômeno na pós-modernidade. A singularidade da sensibilidade epistemológica em rede é, entre outras, recusar a noção de uma história unificada e coerente - tendo em vista, por exemplo que as lógicas dos atores sociais mudam, juntamente com os atores sociais, ao longo da história - e dar conta de uma organização que é complexa, aberta, dispersa, sem centro unificador.

  É claro que a rede possui centros de estabilidade, mas é marcada primordialmente pela noção de flutuação. Da mesma forma com que o que a define, de maneira mais radical (ou seja, na sua raiz) seja o princípio de conexão, que também é responsável pelo seu crescimento. Nas palavras de Serres: "o que permanece relativamente invariável, em sua fulgurante e desordenada história, são os lugares de convergência e de bifurcação, onde se colocam os problemas e onde se tomam as decisões". É imprescindível também estarmos atentos às palavras de Virgínia Kastrup: "É preciso ter em mente que bifurcar não significa dicotomizar! Enquanto a noção de dicotomia remete a duas realidades previamente dadas, a vocação da bifurcação é virar multiplicidade."

  Podemos compreender o conceito de rede através de sua positividade de saber plural, estigmatizado pela diversidade de objetos, métodos e problemas, ou deplorar uma falta de unidade utópica que ainda não se provou plausível. É sensato compreender os pontos de conexão, zonas de bifurcação e também os pontos de divergência como áreas de indiscernibilidade, onde o discernimento ou não atua, ou atua de forma circular, produzindo sempre os mesmos fins. E justamente por isso é que essas áreas são privilegiadas como os terrenos mais propícios para as invenções, para o campo da criatividade, tão ovacionada na contemporaneidade.

  Deleuze afirma que nós escolhemos nossos intercessores. O conceito de intercessor, para Deleuze, segue a do verbo interceder, que significa intervir. Portanto produzir interferência não é o mesmo que fazer interseção - o importante é que o cruzamento constitui uma zona de interferências. Deleuze adverte também que o intercessor pode ser alguém do campo científico, artístico ou filosófico, podendo ser também um conceito um mesmo uma coisa, como um dispositivo técnico. Mas algo é fundamental: "é preciso fabricar seus próprios intercessores". Voltando ao ponto anterior, as migrações de problemas não podem fazer-se sem um processo de criação. Trata-se de um processo de captura e de criação de consonâncias.

  Os novos intercessores forçam a pensar e a problematizar a ciência constituída.

  A Cartografia como abordagem específica:
  A cartografia surge como uma espécie de princípio metodológico. Deve-se abordar um campo movente com uma estratégia que esteja de acordo com a sua natureza. Com a ressalva de que não se deve utilizar a cartografia como meio para se atingir determinado fim, mas sim como forma de se detectar tendências, direções e movimentos (presentes e futuros) que escapam ao plano das formas. As formas existentes resultam de uma amarração de linhas ou de um agenciamento de fluxos.

  Dentro da concepção de cartografia podemos compreender as vias informacionais que formam os sistemas da rede tanto em seu hardware - ou seja, sua estrutura física, biológica ou tecnológica - como em seu software - sua estrutura lógica simbólica.

  Enfim:
  Este texto não é uma tese, não creio que seja um ensaio, de forma que me poupo da necessidade de delimitar um fim sintético ou mesmo à pretensão de qualquer devir. Esse texto é um meio, no qual e como tal, se encerra.
 

[ Texto de 23 de julho, 2003 ]

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Sobre o autor
Renato Kress
é co-autor da revista Consciência.Net [renatokress@consciencia.net]

 
Rizoma
O rizoma é composto
de linhas e não de pontos. Todas as linhas se conectam ou podem se conectar sem obedecer a relações de hierarquia ou subordinação. O rizoma cresce por todos os lados e em todas as direções, o que estabelece seu primeiro princípio, o de conexão. Caracteriza-se por sem um campo coletivo de forças dispersas, múltiplas e heterogêneas. A Heterogeneidade ressalta que o rizoma não é uma estrutura. A linguagem é um dos vetores que compõem o campo do rizoma, mas ela não se reduz aos demais vetores - materiais, sociais, econômicos, tecnológicos, etc.

 
Interface
Segundo Lévi
, é uma superfície de contato, de tradução, de articulação entre dois espaços, duas espécies, duas ordens de realidade diferentes: de um código para outro, do analógico para o digital, do mecânico para o humano... "tudo aquilo que é tradução, transformação, passagem, é da ordem da interface."

 
Ecologia cognitiva
Constitui um espaço de agenciamentos, de pautas interativas, de relações constitutivas, institucionais e técnicas. Nesse espaço é que são geradas modalidades de conhecer, formas de pensar, tecnologias e modos institucionais de acesso e aquisição de conhecimento.