Culpa maior
Verissimo

As caravelas de Pedro Álvares Cabral aproximam-se da praia, onde um grupo de índios as observa. Um índio olha para outro e diz: “Iiih... Lá vem aquele papo de reforma agrária”. O papo de reforma agrária pode não ser tão antigo quanto o Descobrimento do Brasil, mas é certamente um dos nossos temas mais velhos e recorrentes. Tanto que adquiriu uma certa candura de folclore.

Falar muito de reforma agrária e nunca fazê-la seria uma das simpáticas inconseqüências brasileiras, algo como a nossa impontualidade ou outro mau hábito qualquer. Mas como era um ideal nobre, e o fato de termos tanta terra, agia como uma espécie de remorso geográfico permanente, a reforma agrária estava em todo discurso de candidato e todo programa de governo, à esquerda e à direita. O grande, o imperdoável crime dos que começaram a organizar o movimento dos sem terra foi, em primeiro lugar, se organizarem, e em segundo querer transformar retórica em realidade. O de afrontarem um dos pressupostos do patriciado brasileiro e dos seus discursos, que é o de que a boa intenção se basta e os exime de fazer. Desafiaram uma das mais arraigadas tradições nacionais.

Não se trata de justificar ou incentivar as ocupações do MST e a ilegalidade, mesmo porque a violência sempre favorece a reação. Mas a culpa maior pelo ponto de combustão a que chegou a questão fundiária no Brasil não é do ativismo que hoje assusta, de multidões de enjeitados do campo e das cidades, que não são causa mas efeito, e sim de toda uma história de promessas não cumpridas ou mal cumpridas, insensibilidade, oportunidades perdidas — e bons discursos.

Não adianta nada, claro, ficar aqui dizendo que a conta da dívida social brasileira acumulada desde as caravelas, a conta de tudo que não foi feito, está chegando, quá-quá-quá e bem feito, porque numa combustão geral nos queimaremos todos. Mas não culpem as vítimas. Lula não vestiu um uniforme inimigo, como quer a reação, quando botou o boné do MST. O inimigo usa cartola. Ou usava, nas charges antigas.

Luis Fernando Verissimo escreve para O Globo. Publicado em 10 de julho, 2003.


O Globo | Opinião

Busca no site | Principal..Consciência.Net


Publicidade

.