Na aba de que chapéu?
Milton Temer

A repercussão do encontro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a direção do MST, na semana passada, pode ter ajudado o governo a concluir sobre o incontestável: não dá para ninguém se abrigar na aba de dois chapéus, principalmente quando as cabeças caminham em direções opostas.

Retomemos os episódios correlatos anteriores, quando o presidente visitou agroindústrias, subiu em tratores e foi aplaudido por associação de fazendeiros. Quando foi a montadoras de automóveis e dividiu palanque com os executivos do capital, enquanto os do trabalho aplaudiam no chão da fábrica. Nessas ocasiões, mais que colocar chapéus, fez propaganda, e ninguém cobrou nada. Nem mesmo os seus radicais parceiros históricos, hoje no baú do brechó por não acatarem os novos preceitos da área da macroeconomia e da Previdência. Concessões acessórias, eles sabem, só tiram pedaço quando ofendem objetivos estratégicos.

Tal flexibilidade, entretanto, não parece freqüentar as reações dos novos aliados que o presidente pensa ter conseguido do lado do grande capital rural, e de seus porta-vozes. Bastou colocar o chapéu do MST para que a casa quase viesse abaixo. ''O presidente da Republica não pode dar aval institucional a um movimento ilegal'', foi o que se gritou de mais suave.

E, no entanto, o mínimo de objetividade nos obriga a registrar que a luta pela reforma agrária não é a gestora da ilegalidade na disputa agrária brasileira. Ela é apenas conseqüência legítima, porque na raiz da ilegalidade está a imensurável grilagem de terras públicas, por parte de latifundiários inescrupulosos. Está a grilagem de terras ocupadas por comunidades indígenas ou posseiros humildes, cujas famílias foram varridas de áreas onde viviam por gerações. Essa é a ilegalidade fundadora do confronto agrário que torna o Brasil um exemplo solitário, no terceiro milênio, desse tipo de conflito. Na Bolívia, aqui ao lado, a reforma foi feita, pela armas, em 1952. E não acabou com o regime capitalista. Se hoje surge por lá um Evo Morales, quase levado à Presidência da República com proposta de implantação de um regime socialista, é porque a essência do regime capitalista não se abalou, mesmo com a reforma agrária radical. Mas, no Brasil, a elite conservadora opta pela intolerância ideológica, e não admite concessões além das minimamente assistenciais.

Lula, liderança sindical e dirigente de um ''partido de lutas'', sempre soube disso. O presidente Luiz Inácio, referência do ''partido de governo'', é que parece estar se iludindo. Age como se não houvesse diferenças de objetivos estratégicos entre os diversos segmentos sociais, como não havia entre as diversas tendências internas da CUT e do PT, onde todos estavam do mesmo lado do balcão.

Está sentindo agora que, no Estado, tem que se decidir entre dois lados, com interesses muitas vezes antagônicos - o do capital e o do trabalho. E administrá-los não é buscar consenso, mas impor hegemonias que construam maiorias, democraticamente. Só por inaceitável ingenuidade, seria possível imaginar que, num Brasil em que 1% da população é proprietária de 51% da riqueza material, isso seja concretizado sem que ninguém seja incomodado.

O episódio do chapéu do MST serviu para revelar a foto. Tudo se manterá em demonstrações de afeto, desde que mantidos as políticas macroeconômicas anteriores, e o empenho na aprovação desse tipo de reforma da Previdência, do gigantesco superávit primário, da perspectiva de autonomia do Banco Central e da nova Lei de Falências, conforme detalhado na última carta ao FMI. Mas se o governo pretender algum tipo de transformação mais profunda na ordem social e econômica, que prepare o lombo, pois a rebordosa não se fará esperar.

Nesse contexto, cabe aos tripulantes do Palácio do Planalto fazer a opção sobre o chapéu com que pretendem se proteger de anunciadas intempéries. Porque se quiserem usar o de todos, podem terminar no relento.

Milton Temer é jornalista e escreve para JB às quartas-feiras. Publicado em 9 julho 2003, Jornal do Brasil.


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