Joseph Rotblat: 'Política de Bush pode nos levar à catástrofe'

Vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 1995 e um dos mais respeitados cientistas da sua geração, Joseph Rotblat trabalhou no projeto que desenvolveu a bomba atômica, mas renunciou às pesquisas após constatar que seu trabalho contribuiu para matar milhares de inocentes em Hiroshima e Nagasaki. Desde então, tornou-se um pacifista. Fotos de suas peregrinações pela paz decoram as paredes de seu modesto escritório em Londres. Nesta entrevista ao GLOBO, o polonês naturalizado britânico alerta para os riscos da política externa de George W. Bush, sobretudo em relação ao Iraque, e diz que o mundo só vai conseguir se livrar do pesadelo nuclear quando for despolarizado. 
Cassia Maria Rodrigues, correspondente Londres. O Globo, 23 março 2003

Em suas conferências o senhor tem dito que o mundo caminha para um "precipício nuclear". De que forma esse desastre poderia ser evitado?
JOSEPH ROTBLAT: Se conseguíssemos despolarizar o mundo, pondo de volta na agenda política o total desarmamento nuclear. O mundo tornou-se mais e mais polarizado, especialmente depois do slogan usado com frequência pelo presidente George W. Bush: "Ou você está conosco ou contra nós." Esse slogan foi usado na campanha antiterrorista após os atentados de 11 de setembro de 2001, mas ainda hoje continua sendo exaustivamente empregado por Washington como ameaça contra os países que não apóiam o conflito militar no Iraque.

O pacifista e Prêmio Nobel da Paz, então, está contra os EUA?
ROTBLAT: Prefiro não estar nem contra nem a favor. Gostaria de estar com todos, de poder pôr um fim a essa polarização que pode nos levar ao precipício nuclear. Na verdade, estou do lado da paz.

Mas o senhor participou da primeira marcha antiguerra em Londres, que reuniu mais de um milhão de pessoas. De certa forma, isto não o põe contra Washington?
ROTBLAT: Isto me confronta com a política ameaçadora de Washington. Ninguém gosta de ser ameaçado. Contra isso, vou me rebelar sempre. Por isso, peguei um resfriado e fiquei sem voz. De tanto gritar na passeata.

A ameaça nuclear retornou à cena política internacional com a crise na Coréia do Norte e, em menor escala, com o Iraque. O senhor, que esteve na Coréia do Norte há dois anos, diria que o mundo tem um inimigo nuclear em potencial?
ROTBLAT: A ameaça nuclear é real devido à atual política externa conduzida por Washington. Por muitos anos convivemos com a idéia de que armas nucleares só deveriam ser usadas após o fracasso total das relações diplomáticas. Mas isso mudou, um ano atrás, com a administração Bush. As armas estão sendo usadas, ameaçadoramente, como ferramenta militar. Quanto à política externa para o Iraque, o presidente Clinton rejeitou a idéia de que Saddam Hussein era o grande perigo, principalmente para Israel, no Oriente Médio. Mas os conselheiros linha-dura de Bush a aceitaram prontamente, usando os eventos do 11 de setembro como pretexto para fazer a guerra. Como pacifista, não posso aceitar o regime ditatorial de Bagdá, mas repudio a invasão militar ao Iraque. Quanto à Coréia do Norte, não acho que ela represente uma ameaça ao mundo. Ela passou a ser vista desse modo depois que os EUA prometeram fornecer petróleo ao país em troca da desativação de Yongbyon e, posteriormente, romperam o acordo. O que a Coréia do Norte fez, então? Começou a chantagear os Estados Unidos.

O senhor mencionou Israel, que continua mantendo seu arsenal nuclear a despeito de toda a pregação antinuclear de Washington.
ROTBLAT: É este justamente o ponto da incoerência. Não somente Israel mantém armas nucleares, como permite sua utilização por outros países da região. Em junho de 1981, três anos depois de ser agraciado com o Nobel da Paz, Menachem Begin (então primeiro-ministro) ordenou que sua Força Aérea destruísse o reator iraquiano de Osiraq. Foi a primeira tentativa de se bombardear uma instalação nuclear. A próxima pode ser Yongbyon, na Coréia do Norte. Os países árabes, como Líbia, Iraque, Síria e Irã, não aceitam essa concessão de Washington a Israel. Enquanto Israel mantiver seu arsenal nuclear, a tensão no Oriente Médio deve se agravar.

O senhor é favorável a uma política que estabeleça uma zona livre de armas de destruição em massa no Oriente Médio?
ROTBLAT: Acredito que a posse de armas nucleares por Israel é uma das maiores fontes de problemas do Oriente Médio. O estabelecimento de uma zona livre de armas de destruição em massa (químicas e biológicas) iria aliviar a tensão. Cooperação, não isolamento, é o caminho para resolver o conflito.

Como um pacifista como o senhor descreve o perfil político do presidente George W. Bush?
ROTBLAT: O que Bush faz é projetar internacionalmente uma política que só beneficia os Estados Unidos. Em outras palavras, ele deseja que o mundo seja inquilino dos Estados Unidos, deseja que o mundo pague aluguel aos Estados Unidos para ter direito à própria existência. O que a administração Bush está fazendo? Está criando um fosso político, econômico e social entre os americanos e o resto do mundo. Essa política da Casa Branca pode levar à catástrofe.

O senhor realmente acredita que o mundo enfrenta uma real ameaça química e biológica? Como o senhor vê um potencial ataque dessa natureza?
ROTBLAT: Há um grande exagero nisso. Quando ouço as pessoas dizerem que uma pequena quantidade de antraz pode matar milhões, me surpreendo com semelhante desconhecimento da verdade. Não há comparação entre um ataque nuclear e um ataque químico ou biológico. Mas o exagero contido nessas informações faz parte da estratégia de Washington para manter sua atual - e perigosa - política externa, que pode nos levar ao precipício nuclear.

O senhor criou o Movimento Pugwash da Ciência pela Paz que, no passado, contou com outro conhecido pacifista, Bertrand Russell, seu amigo pessoal, além de outros laureados com o Nobel da Paz. Se o senhor voltasse no tempo, quem jamais convidaria para assinar o manifesto do Pugwash pela paz?
ROTBLAT: George W. Bush


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