O deserto e seus temores
Laerte Braga, 20 junho 2003
Saída fora da arte é impossível. Das artes de um modo
geral. Já vi gente chorar de “esguicho”, como gostava de dizer Nelson
Rodrigues, diante de um quadro de Picasso e confessar, candidamente, que
apenas sentia. Não entendia, mas sentia.
Cole Porter foi um dos mais fantásticos compositores norte-americanos.
Eu imagino a dificuldade para mostrar determinados sentimentos na língua
inglesa. É uma língua pobre. Sugere tecnologia. Máquina.
Ou é Shakespeare ou é difícil ser alguma coisa, pelo
menos hoje, ou de uns trinta anos para cá. Não é como
são as línguas latinas.
O português permite versos de dor/amor que ultrapassam os limites
do imaginável: “amar é um deserto e seus temores...” Djavan.
E em qualquer tempo, época: “...E a lua furava nosso zinco/salpicando
de estrelas nosso chão / tu pisavas os astros distraída...”
Orestes Barbosa.
Monsueto Menezes, notável gigante de coração maior
ainda: ”mora na filosofia / pra que rimar amor e dor... ”
Dana de Sada tinha o hábito de dançar a dança dos
sete véus, que na verdade podiam ser dez, doze, enquanto descansava
a metralhadora ao lado da mesa e chorava sem uma lágrima a dor seu
povo, o povo Palestino.
Gostava de entrar descalça no deserto, pisar vagarosamente a areia
e estender-se ao sol com os olhos fechados, enquanto enterrava o pranto
das gentes perdidas. Um dia me disse que via o sangue escorrendo como se
fosse um riacho e entrando por poros de grãos de areia até
sumir todo.
Por isso não restou uma lágrima sequer.
E nem era seca. Tinha sorrisos.
E mãos que estendia e eram capazes de afagos.
Gostava de escorrer os dedos por entre os cabelos, como se estivesse vendo
rios de mel, era o que dizia.
”...Vida que vai na sela dessas dores...” Djavan.
Um dos maiores poetas da língua portuguesa, Fernando Brant escreveu
que ”cantar é buscar o caminho que vai dar no sol...” É parte
de uma das mais belas canções da MPB, ”Nos Bailes da Vida”.
”Esqueço que amar é quase uma dor... / você deságua
e eu oceano... / só sei viver se for por você.” Djavan.
”Parla”, teria dito Michelangelo.
Música é uma eterna visão de ângulos. Os há
em profusão.
Os lados você escolhe, o vértice é o instante do atrito.
Não há imagem que substitua o monólito de Kubrick
sendo atirado para o alto e se transformando em nave espacial. É
o cinema. A perfeita representação da mudança da condição
de ser para a de objeto.
Dana dizia que o deserto tem milhões de vozes a um só tempo.
É só querer ouvi-las. E falam de ângulos, todas elas.
Ângulos podem ser imensos planetas ou belíssimas estrelas,
longínquas mas ao alcance das mãos. E mulheres doces e ternas.
Podem ter todas as letras nos lados, nos vértices, e um tem os lados
A e C e o vértice R.
É por isso que ”amar é um deserto e seus temores”. Por que
”só sei viver se for por você”.
Laerte Braga é
jornalista e analista político. [laerte.braga@uol.com.br]
Laerte
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