O Caso Banestado, ou quando o crime compensa
Laerte Braga, 16 junho 2003

O delegado Lacerda afirmou taxativamente que existem forças do governo, governo do PT, interessadas em abafar e impedir a apuração da lavagem de dinheiro via BANESTADO (Banco do Estado do Paraná), um escândalo de 30 bilhões de reais. O mal estar criado com a Polícia Federal parte do próprio ministro Márcio Tomaz Bastos, um dos que pressionam o delegado e cortam o ar dos policiais, ao criar obstáculos às investigações. Não quer que a turma volte aos Estados Unidos para completar o trabalho e nem se empenha em obter do governo norte-americano os documentos que faltam.

O ministro chefe do Gabinete Civil, José Dirceu, curador de Lula, pediu, na semana passada (foi destaque em toda a imprensa escrita), que um deputado do PP, partido de Paulo Maluf, discursasse na tribuna da Câmara contra a CPI requerida para apurar o caso.

Um dos suspeitos é herr Bornhausen, um ser gerado a partir das experiências genéticas do médico nazista Joseph Mengele e, não por acaso, presidente do PFL (Partido da Frente Liberal), uma espécie de escritório de representação de banqueiros e latifundiários no Congresso Nacional. Bornhausen, conforme as investigações, seria responsável pela lavagem de 4 milhões de dólares. Registre que o dito cujo, senador pelo Estado de Santa Catarina, é banqueiro, já foi presidente da FEBRABAN (Federação Brasileira dos Bancos) e ocupou ministérios nos governos de Sarney e Collor.

Deputado federal e um dos principais líderes do PT na Câmara, o atual ministro José Dirceu, em 1994, queria a CPI da reeleição, para apurar a bandalheira patrocinada por Sérgio Mota e Fernando Henrique Cardoso, visando e conseguindo um segundo mandato para o segundo “Fernando”, o que deu certo, do ponto de vista dos bandidos.

Dirceu, àquela época, declarou da tribuna da Câmara que opor-se à CPI era tornar-se cúmplice do processo corrupto que resultou na aprovação da emenda da reeleição.

E agora? Tentar impedir a CPI do BANESTADO, o que é?

O filho do ministro, com um ano de antecedência, foi lançado, com a presença do dito cujo, candidato a prefeito de Cruzeiro do Oeste, no Estado de São Paulo. A festa estampava para todos os lados: “tal pai tal filho”. Todo o farto e caro material de divulgação, segundo o ministro, veio de amigos. Há fotos do convescote familiar em vários jornais, nas edições de segunda-feira, dia 16.

Ou o PT reage e expulsa aqueles que praticaram o crime de estelionato eleitoral, no caso José Dirceu, José Genoíno, Antônio Palocci, Luís Inácio Lula da Silva, ou vira adereço do processo de transformação do Brasil em empório do capital estrangeiro, ganha perfil social democrata e aí, como diz o vice José Alencar, tem que “pedir desculpas e ir para casa”.

As tentativas de desqualificar políticos que reagem a esse processo de tucanização do PT, gente do porte de Heloísa Helena, repetem o velho processo de não discutir nada, mas rotular tudo e o rótulo, aqui, é de radical.

A verdade é que radicais são eles. E na cara de pau, na falta de vergonha. Luís Inácio Lula da Silva, curatelado de José Dirceu, disse que admite negociar com os servidores públicos sobre a reforma da Previdência determinada pelo FMI. Sexta-feira dizia o contrário. Não sabe o que quer.

Pode, tranqüilamente, ser proclamado o Fernando III.

É ilusão achar que mais à frente acontecerão mudanças, que a política econômica, as propostas de reforma, são apenas estratégia de um momento delicado. Quem luta para abafar um escândalo de 30 bilhões de reais não quer mudar coisa alguma.

O argumento que isso vai atrapalhar a votação das reformas, usado pelo ministro José Dirceu, é simples de ser entendido, até porque, é o mesmo de FHC para tentar impedir a apuração do mar de lama que foi seu desgoverno. Como boa parte dos pilantras está no PFL, no PSDB, no PMDB, no PP, se a turma vier a ter os nomes revelados, não vota as reformas e o governo se estrepa com o FMI.

No Brasil, o crime continua compensando.

Laerte Braga é jornalista e analista político. [laerte.braga@uol.com.br]


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