Quem acredita em Tony Blair...
Laerte Braga, 10 junho 2003

... Ou em Berlusconi, um banqueiro envolvido em trapaças incontáveis... Ou em Aznar, que o nome sugere asno e azar? A principal conseqüência da posição dos governos da Inglaterra, da Itália e França, estados norte-americanos na Europa, está para além do ataque terrorista programado contra o Iraque. No seu delírio de imperador do mundo o presidente dos Estados Unidos, George Bush destrói a unidade européia, planta uma cunha no bloco político e econômico capaz de, em curto prazo, rivalizar-se com os norte-americanos e, naturalmente, vai tocar harpa em seu rancho, no Texas, lógico, enquanto o mundo pega fogo.

Blair apareceu nos telejornais do mundo inteiro dizendo que existem provas sobejas sobre as ligações do governo de Saddam Hussein com a organização terrorista Al-Qaeda. Se forem com as que apresentou sobre armas biológicas e químicas, copiadas na rede mundial de computadores de uma tese de mestrado escrita há mais de dez anos atrás... Claro que são.

Blair é uma espécie de menino de recados do governo norte-americano. Não tem personalidade, não governa coisa alguma, é pau mandado de Bush. Anos atrás falava em terceira via. De ser a via cair de quatro e ficar. Como Palocci e José Dirceu no Brasil.

Arnold Toynbee achava que a guerra nuclear era inevitável. E usava o seguinte argumento para sustentar sua tese: não há sentido em que dois países, no caso Estados Unidos e a então União Soviética, gastem tanto dinheiro em armas de depois acordem sobre desarmamento.

A guerra não veio. Mas todo o contexto de um mundo globalizado nos termos do capitalismo, traçado pelo historiador inglês, ao tempo em que a Inglaterra ainda era uma nação soberana, independente, se confirma paulatinamente, como convém aos fatos históricos.

Assistimos ao horror de uma época em que uma única superpotência determina as regras do jogo, cria uma nova ordem e cai em mãos de um doente mental, com vocação terrorista, indo além do imaginável para garantir o poder do seu império.

Figuras como Blair são acessórias, cumprem o papel que lhe cabe e já e já saem de cena. Vão para as páginas da História onde ficam os fracos, os pusilânimes. Junto com ele figuras menores como Berlusconi e Aznar.

Nem falo do governo da Austrália, não há necessidade. O apoio aos norte-americanos. em sua escalada do terror, é conseqüência de anos e anos de governos que rastejam, rastejam e não têm como voltar à condição de bípedes racionais.

Os dois milhões de ingleses que saíram às ruas para protestar contra o apoio do governo de Blair, mais que protestar contra a guerra, protestavam contra a perda da independência. Da soberania. Percebem o que processo que vem rolando desde o desastre Margareth Teatcher. A transformação da Grã Bretanha, o outrora império onde o sol não se punha, em apêndice dos Estados Unidos na Europa. Cunha, diante das possibilidades da Comunidade Européia.

Blair, em sua "ofensiva diplomática" procurou o Papa João Paulo II. Foi tentar contornar, ou suavizar a declaração do chefe da igreja pela Paz e, principalmente, as decisões das igrejas católica e anglicana, na Grã-Bretanha que por seus arcebispos principais foram taxativos: "não existem justificativas morais para a guerra".

A edição do jornal inglês "The Sun", em francês e distribuída gratuitamente na França comparando o presidente Jacques Chirac a um verme, é típica de um estelionatário, Blair. O documento falsificado contra o Iraque o que é? Outra figura diferente de estelionato?

Blair é só um episódio na História, mas deixa um rastro de ódio, mentiras, sangue, como todos os boçais, todos os que constroem suas carreiras sendo subalternos. É por gente como ele que existe o ditado: "mais realista que o rei".

Laerte Braga é jornalista e analista político. [laerte.braga@uol.com.br]


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