| Eleições britânicas:
revés para Blair
Isaac Bigio, 27 de junho, 2003 As eleições britânicas de primeiro de maio mostraram um retrocesso significativo do trabalhismo. O líder conservador Ian Duncan Smith reivindica uma enorme vitória ao eleger mais de 550 vereadores, ainda que um de seus secretários tenha renunciado. Os liberais se sentem os grandes vencedores porque obtiveram uma votação similar a do oficialismo e acreditam que estão conseguindo superar o tradicional bipartidarismo. Enquanto os nacionalistas escoceses e galeses perderam espaço, grandes avanços foram feitos pela extrema direita racista (Partido Nacional Britânico), pelos verdes e pela extrema esquerda trotskista (Partido Socialista Escocês). Nas eleições do dia dos trabalhadores votaram menos de 60% dos 38 milhões de britânicos aptos a votar. Estavam em jogo os governos de 340 municípios e cerca de 10 mil cadeiras de vereador em todo o Reino Unido, à exceção da grande Londres e da Irlanda do Norte. Também se votou para a Assembléia de Gales e o parlamento da Escócia. Os conservadores obtiveram 35% dos votos e 4.423 cadeiras de vereador, enquanto os trabalhistas e liberal-democratas tiveram cada um cerca de 30%. Os primeiros apenas elegeram 3.001 vereadores, perdendo mais de 800 cadeiras, e os liberais cresceram em 200 cadeiras, totalizando 2.624 vereadores. Os trabalhistas perdem
municípios
Enquanto os trabalhistas conseguiram ganhar amplamente as eleições gerais parlamentares de 1997 e 2001 com mais de 40% dos votos e conquistando mais de 60% do parlamento, agora perderam mais de dez pontos e apenas asseguraram um quinto dos municípios. Os conservadores, que têm um quarto da Câmara dos Comuns, obtiveram 45% das cadeiras de vereador e possivelmente chegarão ao poder na maioria dos municípios. Estes resultados são um golpe para o atual primeiro ministro. Nas municipais passadas o Novo Trabalhismo também retrocedeu eleitoralmente e a oposição conservadora ganhou, mas Blair conseguiu se recuperar. A percepção é que nas municipais há grande abstenção e as pessoas votam por questões muito concretas. Entretanto, Blair recebeu um castigo por parte de muitos de seus eleitores que não concordavam com a guerra contra o Iraque. A maior cidade inglesa em disputa foi Birmingham e ali o trabalhismo perdeu 18 anos de hegemonia. Trata-se de uma cidade com grande população asiática e muçulmana. Os mais de 2 milhões de britânicos pertencentes a estas comunidades tendiam a votar nos trabalhistas, mas desta vez não quiseram apoiar quem invadiu a antiga capital do Islã (Bagdá). Muitos jovens e trabalhadores, bases do trabalhismo, não foram votar, e diversos ativistas do partido não jogaram peso na campanha, desmoralizados pela posição de seu governo ante a guerra e a semiprivatização de hospitais e escolas. Os conservadores ganharam as municipais devido a essa apatia ou recusa de bases tradicionalmente trabalhistas a seguir respaldando seu partido histórico. A percentagem de votos com que os conservadores ganharam se equivale a 35% dos votos totais, ficando apenas entre 10 e 15% do eleitorado. Nas eleições gerais a abstenção é menor e os conservadores necessitariam quase triplicar seus votos para poder ganhar o parlamento. Os liberal-democratas vêm conseguindo um avanço maior do que o obtido nos últimos 50 anos. Praticamente empataram com o trabalhismo, o partido que nos anos 30 os substituiu na bipolaridade partidária britânica e desde então os impediu de chegar ao governo ou controlar sequer 10% do parlamento. O paradoxo é que em 1900 o trabalhismo surgiu como uma cisão pela esquerda do liberalismo. Os sindicatos romperam com o partido tradicional dos industrialistas e foram atraindo votos com um programa social. O atual partido liberal democrata foi criado com a fusão dos social-democratas (cisão direitista do trabalhismo) com os liberais que estavam entre a direita conservadora e a esquerda trabalhista. Agora, tal é a inclinação à direita por parte de Blair, que os liberais aparecem questionando o primeiro-ministro por entrar na guerra sem as Nações Unidas ou por ir eliminando a educação superior gratuita e certos aspectos do sistema estatal gratuito de saúde (NHS). Os municípios foram anteriormente um baluarte dos trabalhistas que se opunham às privatizações e que ofereciam melhores sistemas de transporte e moradia. Mas o trabalhismo foi girando para um pragmatismo que pouco os diferenciava dos conservadores. Nesse sentido, estes últimos demonstraram que, se se trata de governar municípios que baixem os impostos ou incrementem a polícia, eles são mais adequados que os rivais. As eleições
nacionais em Gales e na Escócia
Os trabalhistas, embora tenham perdido cidades como Birmingham ou Bristol, têm como consolo ter conseguido manter-se no governo em Gales e Escócia. Em Gales, controlam metade da Assembléia (30 cadeiras) e podem pretender fazer um governo sem alianças. Os conservadores tiveram um ligeiro crescimento nesses dois países denominados de “arco celta”. Isto é importante, porque nas eleições gerais que levaram Blair à chefia do governo os conservadores não ganharam em nenhuma circunscrição eleitoral em qualquer um dos quatro componentes do Reino Unido com exceção da Inglaterra. Auge dos partidos menores
Naqueles lugares onde concorreu, o Partido Nacional Britânico conseguiu em média 13,75% dos votos, com um discurso que defende o poder para os brancos e a expulsão dos imigrantes e exilados. Os verdes subiram de um parlamentar escocês para sete, e triplicaram seu número de vereadores na Inglaterra. O Partido Socialista Escocês, formado pela unificação de vários grupos trotskistas e trabalhistas, ficou ligeiramente abaixo dos liberais, conseguindo 7,5% dos votos na Escócia. Enquanto na Inglaterra e em Gales o desencanto com o trabalhismo favoreceu os conservadores e os liberais, na Escócia foi capitalizado pela esquerda ecologista e trotskista. Perspectivas
As atuais eleições locais podem ter evitado a queda de Smith, mas não selaram a unidade partidária. Ela se encontra despedaçada por diferenças sobre a guerra e sobre adotar ou não o euro como moeda. Smith pode ter agora a possibilidade de estruturar uma oposição mais enérgica com vistas a substituir Tony Blair em 2005 ou 2006. No momento Blair se mantém na dianteira, mas sua liderança foi abalada com a guerra. Os trabalhistas, apesar de afirmarem que os conservadores podem ser mais duros que Blair em políticas de guerra ou de privatizações, não conseguiram melhorar sua imagem identificada como um partido dividido que ignora as questões sociais. Os liberais buscarão capitalizar o desgaste trabalhista a partir de um ângulo diferente dos conservadores, pretendendo mostrar que são mais consistentes na defesa da seguridade social e no caminho para o euro. sobre o
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