Custo político da
reforma da Previdência não compensa, diz petista
Camilo Toscano, 10 junho
2003, Folha
Online
Integrante da corrente de
esquerda do PT Força Socialista, o deputado federal Ivan Valente
(SP), 53, disse em entrevista à Folha Online que vai tentar
convencer o governo de que os ganhos com a aprovação das
atuais propostas de reforma da Previdência não irão
compensar o desgaste político para aprová-las.
Valente é um dos autores
do manifesto "Crescimento Já" - com críticas à política
econômica do governo e assinado inicialmente por 30 deputados, mas
que conta hoje com 28 signatários - e crítico da proposta
apresentada pelo governo ao Congresso Nacional em abril, tendo se posicionado
contra a taxação de inativos, aumento da idade mínima
para aposentadoria e o teto de R$ 2.400 para o INSS (Instituto Nacional
de Seguridade Social).
Leia abaixo trechos da entrevista,
concedida ontem à tarde:
Folha Online - Quais são
os próximos movimentos do "Grupo dos 30" para mudanças no
texto da reforma da Previdência?
Ivan Valente - Estamos sistematizando
as emendas, a nossa visão sobre elas e também uma discussão
mais geral sobre a reforma, que é a discussão do custo-benefício
da reforma. Nosso partido tem uma imensa base no serviço público,
sempre defendemos um Estado forte, articulado, e a proposta enfraquece
e desarticula o Estado, porque vamos ter uma corrida para aposentadorias
precoces, o que, na prática, pode inviabilizar os ganhos fiscais
que se pretende com a reforma. As medidas não têm compatibilidade
com o programa [de governo de Lula], que fala em Previdência única,
universal, com um teto. O programa não contém cobrança
dos inativos, cálculo do benefício pela média, corte
das pensões, aumento da idade mínima. Outra questão
é a da aposentadoria complementar. Minha opinião é
de que, se tiver que haver aposentadoria complementar, tem de ser estatal.
Como funcionaria exatamente
essa aposentadoria estatal?
O Estado é que iria
fazer a gestão. O Estado entra com sua contrapartida, o trabalhador,
acima do teto, entra com sua contribuição e o fundo seria
gerido ou pelo BNDES ou pelo Banco Central para recomprar a dívida
interna, para, aí sim, fazer com que os juros baixem. Não
queremos que esse dinheiro vá parar no mercado financeiro e não
gerar emprego, desenvolvimento e infra-estrutura. O ajuste fiscal que vai
ser feito não compensa o desgaste político que o partido
e o governo podem sofrer.
Há uma proposta
para aposentadoria estatal?
Estamos ainda discutindo,
tem uma proposta de emenda colocada para a bancada e para o Grupo dos 30.
Vamos fazer a triagem [das propostas] neste semana.
Como o sr. acha que o
governo vai encarar essa avaliação de que não compensa
o custo-benefício?
Vai haver um debate político
e quero convencer o governo disso...
O sr. espera um enquadramento?
O enquadramento não
se coloca no momento, porque todas as propostas estão em debate
e a bancada tem posição de que os deputados podem apresentar
emendas. Também o Diretório Nacional só vai se reunir
em julho, enquanto isso, as questões estão em debate.
O ministro Ricardo Berzoini
(Previdência) chegou a dizer que a taxação de inativos
não contradiz o ideário do PT...
A não taxação
dos inativos faz parte da cultura do PT. Não estou discutindo a
juricidade, mas a idéia central, o conceito de que o trabalhador
contribuiu 35 anos, vai para inatividade e não há por quê
ele voltar a contribuir. É um novo imposto [taxar inativos]. O PT
votou três vezes contra essa questão e ainda entrou com uma
ação direta de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal
Federal. É uma questão de coerência. Tem coisas mais
graves, como o cálculo pela média. Aí sim, existe
um desestímulo, o fim da integralidade, que é uma conquista
do funcionalismo. O serviço público dá paridade de
vencimentos entre ativos e inativos. O cálculo pela média
liquida com essa questão. Tanto que apresentamos a emenda aumentando
o tempo de serviço público e no cargo, porque, embora represente
para os servidores atuais algum tipo de sacrifício, fortalece a
carreira de quem quer ficar no serviço público, mas mantém
a integralidade e paridade de vencimentos. Você dialoga com o funcionalismo,
pede alguma coisa, mas fala "a carreira está garantida".
Uma das propostas aventadas
é fazer esse cálculo a partir de 1994...
Eles [o governo] mesmo estão
percebendo essa questão. Vários deputados do PT levantaram
a inviabilidade técnica de fazer esse cálculo antes de 1994.
Seria uma boa saída
fazer esse cálculo a partir de 1994?
Ela melhora, mas continua
trabalhando com a média. O problema da média é que
há sempre um rebaixamento. Essa idéia [de cálculo
a partir de 1994] é nova, mas ainda não endossada pelo governo.
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