Relações internacionais carinhosas
Luiz Carlos Santos de Alencar

Os Estados Unidos da América desprezaram o clamor e as súplicas mundiais por temperança e paz, solaparam a legitimidade do foro global, quebraram a ordem jurídica internacional e envergonharam a humanidade, ao liderarem, como lideraram, a coalizão de países que deflagrou a primeira guerra aberta de conquista, anunciada com 'choque e pavor', a marcar de ódio, sangue, morte, desgraça e dor o milênio que se inaugura e a agourar desolação e trevas a este quartel do século que principia.

Nenhum dos fundamentos invocados pela coalizão, para a guerra iniciada na cabalística data de 20.03.2003 contra a nação soberana do Iraque, podia ser acreditado. A verdade escondida, em tão mais vergonhosa quanto mais eficaz orquestração da mídia, fôra de todos os seres minimamente conscientes do mundo sempre conhecida, e o desdobrar das maquinações e gestos, das cenas e dos discursos, de lá a cá, no plano internacional, poderia de fato apenas confirmá-lo, como o confirmou.

O Iraque era um país! Tinha embaixadores, infraestrutura, serviço público e, também, convém lembrar, dezenas de milhões de viventes que nasceram e cresceram como iraquianos, sentindo-se e considerando-se iraquianos; um país mesmo. Agora não é mais. O que é do Iraque? Não se sabe. E o que é dos iraquianos? Também não. Comprovadamente, pelo início do século 21 e do 3º Milênio da Era Cristã, países podem simplesmente desaparecer. O lugar onde era o Iraque continua lá e o povo que era iraquiano também, mas o lugar não é mais o Iraque, nem é mais dele um povo iraquiano.

Os governos que protestaram, já não protestam mais. Sensibilizados pela competência, pelo vigor e pela potência irresistíveis, demonstrados no assédio e na brutal subjugação da pátria iraquiana, rebaixaram-se e parecem agora prontos, quase ansiosos por perdoar, excitados pelas imagens ainda vivas na memória das atrocidades cometidas, como pelas vantagens prometidas da sujeição, ainda que de gozo incerto, a introdução do incomum, grotesto, surpreendente, chocante e apavorante estandarte norte-americano da 'guerra preventiva'.

Rússia, Alemanha e França, opositores de primeira hora, já o assimilaram. D'outros 'principais', voz não se ouve. O governo do Brasil, que elevara o tom das contrariedades, em sintonia com a notória vocação dos brasileiros e do mundo, logo ao abrir das hostilidades, resolveu ignorar a 'vox populi' que o orientava e já não manifesta opinião quanto ao tratamento dado à Síria, quanto à preocupante situação do Irã, sobre o bloqueio aeronaval à Coréia do Norte, os bombardeios na Colômbia, a debacle do Peru ou sobre a avassaladora e insustentável pressão contra Cuba.

Em território estadunidense, por ocasião de recente visita protocolar àquele país, o Exmo. Sr. Presidente da República Federativa do Brasil chegou a afirmar que a relação com os EUA é de ser tratada 'com muito carinho[1]. Santo homem. Não lhe ocorre que no amor, como na guerra, todos os golpes são permitidos? Mas haverá quem se valha de sua razão, a imaginar que talvez com paciência, lealdade, amor e sobretudo muito, 'muito carinho', os EUA venham a reconhecer um débito afetivo e parem de ameaçar o mundo, torturem menos, reduzam seus exércitos, recolham suas bases, interrompam a fabricação de armas químicas, biológicas e nucleares, desistam de militarizar o espaço sideral, reflitam e passem a amar-nos e tratar-nos carinhosamente também.

Todavia, o poeta, que 'do amor e seus danos se fez lavrador, semeava amor, mas colhia enganos, e não viu em seus anos homem que apanhasse o que semeasse'[2]. Embalde se apoiará e esperará pelos frutos idealizados de um projeto assim carinhoso e hermoso para a relação com os Estados Unidos.

Quase um ano antes da invasão e ocupação absurda do território iraquiano, um dos mais renomados mestres do Direito Internacional, Dr. Francisco Resek, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal e ex-chanceler do Brasil, afirmava, numa conferência que proferiu como Juiz da Corte Internacional de Justiça, em Brasília:

 
"O que estamos vivendo não é um momento de crise. O que a sociedade internacional vive hoje é um momento de desonra. É um momento de substituição dos princípios e valores que prevaleciam até os últimos anos do século XX, ou pretendiam prevalecer, e uma total absorção desses espaços pela negação do Direito e pela afirmação do poder puro e simples como única fonte de desenvolvimento dos rumos da sociedade internacional.

Pensem nisso e pensem na responsabilidade dos operadores do Direito diante disso. Governantes, em geral, têm uma percepção menos ampla do que juristas das conseqüências do abandono do Direito. Governantes, em geral, têm que ser pressionados pela nossa comunidade de ofício para fazer valer lá fora a voz da nossa comunidade, na medida em que ela pensa sobre o mundo e o projeta melhor que hoje.

Pensem na importância de países como o nosso nesse processo. Num mundo de tantos remorsos, construímos a nossa História sem lesar ninguém, sem tirar de qualquer outra nação aquilo que fosse seu. Num mundo de tanta insegurança e violência no plano externo, conseguimos construir a nossa História de modo que lá fora valorizam e respeitam. Se não formos nós, se não forem pessoas que têm por trás de si um pavilhão como aquele", -- aponta a bandeira do Brasil – "quem fará isso? Quem superará esse momento de desonra e recuperará a saúde do Direito Internacional, a decência da sociedade internacional? Não serão os beneficiários do jogo de poder. Não serão os responsáveis pelo uso da truculência como política. Não serão também os deslumbrados, aqueles que aderem facilmente e que obedecem incondicionalmente, porque, de algum modo, lhes parece que isso é moderno, que isso é uma tendência que há de ser observada. E não serão também, desgraçadamente, aqueles que foram reduzidos a quase nada pela grande crise das últimas décadas do século XX.

Não podemos esperar dessas outras nações aquilo que as nações do gênero da nossa têm como responsabilidade prioritária: restaurar, recuperar de algum modo a honra perdida da sociedade internacional.

Acredito que vale a pena pensar nesse propósito. E essa é uma idéia que, no fundo, consola. Sabemos que a dimensão do problema é sem paralelo, mas sabemos, por outro lado, que esse é um momento de grande fecundidade. E aquilo que se faça, que se proponha, que se sugira, que se invente, que se inove, aquilo por que se lute pode tornar-se realidade, às vezes, muito mais cedo do que se imagina.

Este é um momento de generalizada acomodação e generalizada falta de coragem lá fora. Alguns dirão: "Mas nós temos aqui, no Brasil, algumas prioridades pungentes. Temos também o problema da violência, temos o problema da corrupção". Sim. Mas, Santo Deus, no nosso caso interno, no caso da nossa problemática interna, ainda não perdemos a noção da fronteira entre crime e ação à luz da lei. Ainda nos envergonhamos da violência, da corrupção. Ainda temos, portanto, um referencial. E foi exatamente isto que se perdeu abertamente lá fora. O que, nesse momento, no plano externo, se perdeu por completo: a noção de que há uma fronteira entre o Direito e a força e a de que o primeiro deveria prevalecer. É extrema a gravidade do fenômeno. E, ao mesmo tempo, isso faz crescer a responsabilidade dos operadores do Direito no Brasil".[3]


Contrastando-se a posição do grande jurista com a recém-assumida pelo governo brasileiro, força é contar infelizmente o país, 'gigante por sua própria natureza', entre os acometidos pela 'generalizada acomodação', pela 'generalizada falta de coragem', e concluir, nos termos da indignação condoreira de Castro Alves com a escravidão: "Auriverde pendão da minha terra, que a brisa do Brasil beija e balança; estandarte que a luz do sol encerra e as promessas divinas da esperança; tu que da liberdade após a guerra foste hasteado dos heróis na lança, antes te houvessem roto na batalha, que ora servires a um povo traído por governantes de mortalha".[4]

Luiz Carlos Santos de Alencar [lcdealencar@uol.com.br], 25 junho 2003
 


[1] Ver http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u50351.shtml
[2] Paráfrase de versos de soneto de Camões
[3] Ver http://www.cedi.org.br/Eventos/imunidade/palestrashtm/rezek.htm
[4] Último verso modificado com a inclusão de 'traído por governantes'

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