| Rio, cidade calamitosa
Renato Rocha A cidade do Rio de Janeiro vem disputando espaço na mídia, de uma forma muito negativa, com uma outra cidade chamada Bagdá. O fato é que o povo carioca conhecido por sua boêmia, samba e outros predicados tão saudáveis quanto, teve que trocar o termo malandragem, no seu sentido mais poético, por "malandragem" na sua definição mais perversa. Temos muito orgulho de nossa herança cultural e de nossa característica plural. Ao falarmos nos mineiros, lembramos de política, pão-de-queijo, cidade histórica e por aí vai. Já os baianos, lembramos do axé, carnaval de 30 dias (ou mais), do negro, candomblé etc. Para cada estado um aspecto local. O carioca quando estufa o peito e diz "sou carioca", provoca, em apenas duas palavras, um verdadeiro mosaico de imagens, sons e cores no interlocutor. O Rio de Janeiro é para o Brasil o que Nova York é para os EUA. Um pouco de cada parte do Brasil (e do mundo) está aqui, fomos capital do Brasil um dia. Ultimamente o carioca tem andado de "sorriso amarelo". Nasci e continuo crescendo aqui e olho o caos que tomou conta da minha cidade, meu patrimônio e motivo de orgulho, sendo alvo de lama, corrupção, crime e medo. Não é o tipo de cidade que quero para convidar meus amigos ou deixar para meus filhos. No chope o gosto de insegurança, para os jovens o medo e para os idosos o cárcere, pois estão sem refúgio até durante o dia. E pouco a pouco estamos perdendo o carisma e a fonte de referência brasileira no exterior. Nossa cidade deixou de ser maravilhosa há muito tempo. Guardo comigo lembranças de uma outra cidade: A Cidade Maravilhosa, assim mesmo, com letras maiúsculas. E meus pais me diziam, na infância, que ela tinha sido muito melhor. Imagine algo que você já ache bom ter sido bem melhor. Só consigo imaginar o que os meus pais estão sentindo, multiplicando o que sinto, por sei lá quanto. Esperamos muito empenho por parte das autoridades. Menos falácia, teorias e mais foco no caos que aí está. Dizer de quem é a culpa não vai nos ajudar. Todos que aí estão, sem exceção, usaram o caos como bandeira de campanha e, graças a ele, foram eleitos. Cuidem bem dele pois este caos não é nosso. Nós só temos obrigações, impostos, miséria e desgraça. Esse é o nosso "pão de cada dia" e é o que damos de "comer" aos nossos filhos. Os Senhores foram delegados para mudar esse "cardápio" e solucionar os nossos problemas (não disse tentar solucionar). Nós temos a "peste" política do conchavo, é o mesmo quadro a cada eleição. Espero que os demais funcionários (presidente, senadores, deputados e prefeitos, e todos a estes ligados) movam-se. Retribuam em trabalho o que receberam de nós em forma de voto. Não queremos calote, basta!, paguem-nos esta conta. A grande maioria da população trabalha na iniciativa privada e não têm direito a escolha. Chegam no trabalho na hora marcada (dignamente), voltam para casa (muitos não) e no fim de 30 dias (muito fizeram) não conseguem pagar suas contas. Os senhores foram eleitos (dignamente), poucos trabalham (muitos não) e no final de 30 dias (nada fizeram) sobra dinheiro e não conseguem pagar suas contas com a sociedade. Renato Rocha é contador e formando em direito. 16 abril 2003
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