A síndrome da China
Paul Krugman, maio 2003

Uma coisa engraçada aconteceu durante a guerra contra o Iraque: os americanos ligavam na BBC para ver notícias sobre o conflito. Eles queriam um ponto de vista alternativo – algo que eles não encontravam nos canais dos EUA, que, nas palavras do diretor geral da BBC, "se embrulharam na bandeira americana e substituíram a imparcialidade pelo patriotismo".

Considerem o paradoxo. A BBC pertence ao governo britânico, e esperava-se que ela apoiasse a política governamental. Mas ela se manteve imparcial. As redes de TV americanas, que são privadas, se comportaram como uma mídia estatal.

O que explica esse paradoxo? Talvez a síndrome da China. Não a dos reatores nucleares, mas a exibida pela News Corporation, de Rupert Murdoch, ao negociar com a República Popular.

Nos EUA, o império de mídia de Murdoch – que inclui o canal Fox News e o jornal The New York Post – é conhecido por seu patriotismo exacerbado. Mas isso não o impediu, segundo a revista Fortune, de "lisonjear o regime repressivo da China" para entrar naquele mercado. Isso incluiu tirar a BBC – que noticia coisas que o governo chinês não quer ver divulgadas – de seu serviço de TV por assinatura.

Isso pode acontecer nos EUA? Claro. Por meio de decisões políticas – especialmente de regulamentação – o governo americano pode recompensar as empresas que o agradam e punir as que o desagradam. Isso incentiva as redes privadas a bajularem o poder. Não deveríamos nos surpreender se a televisão "independente" dos EUA é mais condescendente com quem está no poder do que as estatais da Grã-Bretanha ou de Israel.

Uma reportagem do britânico The Times ilustrou a habilidade do governo americano de recompensar as empresas de mídia que fazem o que ele quer. O assunto era uma proposta do presidente da Comissão Federal de Comunicações, Michael Powell, para reduzir a regulamentação sobre propriedade no setor de mídia. A proposta pode ser explicada como um plano para deixar os peixes grandes comerem mais peixes pequenos. As grandes companhias de mídia poderão ter mais estações de TV em qualquer mercado local, e muitas restrições sobre acúmulo da propriedade de rádio, TV e jornais na mesma região serão eliminadas.

O que mais me surpreendeu foi a barganha envolvida. Um grupo de mídia escreveu a Powell dizendo que deixaria de se opor à parte da proposta "em troca de sua ação favorável" em outro assunto. Isso foi indiscreto, mas você teria de ser muito ingênuo para não achar que há muitas barganhas implícitas ali.

E estas certamente se estendem ao conteúdo do noticiário. Imagine um executivo da TV analisando se mostra ou não uma reportagem que possa prejudicar o governo Bush. É claro que ele vai pensar que o governo poderia punir qualquer canal que mostrasse a história.

Não temos censura neste país; ainda é possível encontrar diferentes pontos de vista. Mas temos um sistema em que grandes empresas de mídia são incentivadas a mostrar as notícias de uma forma que agrade ao partido no poder.

Paul Krugman é colunista do New York Times


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