Éguas e Lacraias
Caetano Cury

Entra ano, sai ano e a mesma história sempre se repete: o carnaval é marcado pelas novas obras-primas da música brasileira que dominam os alto-falantes de todo país. Impostas pela brilhante grade de programação da nossa televisão, os atuais sucessos do carnaval vão a cada dia se distanciando das raízes da nossa terra. A TV nacional, ao invés de promover a cultura e a educação, apela para esse lixo que tanto aumenta seu faturamento.

Influenciados e hipnotizados pela televisão, os foliões se rendem a um estilo insensível de música, onde as letras são tão inteligentes e cultas quanto uma lacraia ou uma égua. Os ritmos são fascinantes. A quantidade de arranjos musicais contidas nas notas das melodias nos impressionam profundamente.

Nos vemos então diante de uma pobreza cultural preocupante: não existem mais compositores de qualidade ou a boa música está sendo ocultada pela mídia capitalista das rádios e TVs comerciais? Quem é o culpado pelo sucesso da baixaria: o povo ou a mídia? De certo modo, podemos inferir que o povo e a mídia são os mesmos. A mídia endeusa o lixo porque o povo o admira e vice-versa.

Assim formamos um círculo vicioso regressivo, onde a qualidade vai perdendo sua força para uma cultura bizarra, repleta de figuras medonhas com vozes mecânicas e artificiais. Os que defendem o funk ou o axé chulo argumentam que estes são as marchinhas de carnaval do século XXI. São defensores da Teoria da Evolução. Mas podemos chamar isso de evolução? Seria uma vergonhosa falta de ética tentar dizer que as batidas de MC Serginho são a evolução dos antigos sambas de Chico Buarque.

Para resgatar a cultura brasileira, poderiam ser utilizadas as mesmas armas que a destruíram. Se a mídia usasse seu poder para reverter a situação, condenando esse estilo enojador e destacando com veemência os novos sambas, certamente as nossas raízes voltariam com imponente vitalidade. Mas, quem se arriscaria a dar cartaz para a música de qualidade, já que estamos tão acostumados com o lixo?

Porém, apesar de tantas lacraias, eguinhas e cachorrinhos, nos sentimos consolados ao refletir que a onda do carnaval não predomina o ano inteiro e automaticamente as suas batidas vão embora junto com ela. Temos a esperança de que o lixo irá se decompor e que o bom e legítimo samba um dia voltará, recuperando o seu espaço que foi covardemente tomado pelas músicas comercias. Afinal, já dizia o poeta: amanhã vai ser outro dia.

Caetano Cury é locutor da Rádio Clube de Guaxupé AM 1430 kHz. 16 março 2003


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