| Militares investigaram Chiquinho
29 junho 2003, O Globo Antônio Werneck e Dimmi Amora Já em 1998 agentes da inteligência das Forças Armadas investigaram no Rio a suposta ligação do agora secretário estadual de Esportes, Francisco de Carvalho, o Chiquinho da Mangueira, com o traficante Francisco Paulo Testas Monteiro, o Tuchinha, hoje preso em Bangu III, de onde comandaria o tráfico de drogas no Morro da Mangueira. As informações constam de um dossiê repassado à Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança (SSI), mas as investigações caminharam pouco na esfera estadual: foram interrompidas em março de 1999, três meses depois de Anthony Garotinho, atual secretário de Segurança Pública, assumir o governo do Rio e nomear Chiquinho diretor da Suderj. Documento confidencial da SSI obtido pelo GLOBO revela que as investigações das Forças Armadas no Rio começaram na Marinha e prosseguiram no Exército, a cargo de agentes do Centro de Inteligência do Exército (CIE), lotados no Comando Militar do Leste (CML). Naquela época os militares seguiam os passos de dois colombianos que se apresentavam como Olivério Medina e Hernan Ramirez, moravam em Brasília e aparentemente pretendiam montar um escritório de representação diplomática das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) no Brasil. Segundo o documento, os dois colombianos "teriam feito diversas reuniões com parlamentares em Brasília", deslocando-se no fim de 1998 para o Rio, tendo feito contato com Jorge Augusto da Silva, o Jorge Dourado, então presidente da Associação de Moradores do Buraco Quente, no Morro da Mangueira, apontado em investigações da polícia como homem de confiança de Tuchinha. Ainda segundo o documento, "grupos ligados a Jorge Dourado estariam se articulando para formar uma federação de associações de moradores dominada pelo Comando Vermelho". Documento apontou objetivo
eleitoral
Os motivos que levaram o trabalho a ser interrompido não são de conhecimento nem mesmo do coronel da reserva do Exército Romeu Antônio Ferreira, que naquela época chefiava o Cisp e recentemente voltou a comandar a SSI. Romeu pediu exoneração do posto em março de 1999, depois de um desentendimento com o então subsecretário Luiz Eduardo Soares, atual secretário Nacional de Segurança. - O que posso dizer é que essa investigação foi realmente iniciada na Marinha, passou pelo Exército e nos foi enviada. Não tenho idéia do que aconteceu com a investigação e só posso dizer como ela terminou com autorização do secretário de Segurança Pública – disse Romeu ao ser procurado pelo GLOBO na semana passada. Embora sejam de conhecimento da polícia desde 1998, as investigações foram esquecidas nos arquivos da Subsecretaria de Segurança. Elas não foram repassadas ao Ministério Público estadual, à comissão que investiga o caso na Assembléia Legislativa nem ao delegado Paulo Passos, responsável pelo inquérito que apura as denúncias do tenente coronel Erir Ribeiro da Costa Filho, ex-comandante do 4 BPM (São Cristóvão), contra Chiquinho. Num documento reservado, publicado pelo GLOBO no mês passado, o coronel informou que Chiquinho o procurara em fevereiro deste ano no batalhão e pediu-lhe uma trégua no combate ao tráfico da Mangueira porque estaria sendo ameaçado. Chiquinho nega o pedido e diz que pediu planejamento nas operações durante o horário escolar. Garotinho diz não
ter visto relatório
No início da noite de ontem, o ex-governador Anthony Garotinho, por intermédio de sua assessoria, informou ao "RJ-TV" que quem deve se pronunciar sobre o assunto é Josias Quintal, atualmente deputado federal. Garotinho alega que na época Josias não lhe entregou o relatório. Embora tenha se negado a falar com repórteres do GLOBO durante quatro dias, Josias Quintal, também por meio de sua assessoria, informou no mesmo telejornal que não chegou a ter acesso ao relatório. O documento teria chegado à secretaria em março de 1999. Quando assumiu, um mês depois, o relatório já não estava mais lá. O general José Siqueira, que foi secretário de Segurança até 6 de abril de 1999 disse, por sua vez, que no período em que ficou no cargo não recebeu o relatório com a denúncia. Segundo o documento da SSI, o "objetivo desta federação de associação de moradores seria o de eleger candidatos ligados ao Comando Vermelho para conquistar espaço político nos diferentes níveis do Legislativo e do Executivo, através de mobilização dentro de suas áreas de influência". Ainda segundo o documento, "um dos desdobramentos políticos, resultado desta mobilização, foi a nomeação de Francisco de Carvalho, o Chiquinho da Mangueira, para a presidência da Superintendência de Desportos do Rio de Janeiro (Suderj), sendo que Chiquinho da Mangueira é ligado ao traficante Francisco Paulo Testas Monteiro, o Tuchinha". Jorge Dourado e Pedro Feitosa, diz o documento da SSI, pretendiam conseguir para o Complexo do Alemão "armamento pesado procedente da Líbia, sendo que a missão das Farc seria a de ministrar cursos de guerrilha, inicialmente para os traficantes deste complexo". No ano passado, o coronel Antonio José Ferreira Freire, que comandava a SSI, investigou a presença de um argentino supostamente ligado às Farc que estaria na Favela da Grota, no Complexo do Alemão, "ministrando cursos aos traficantes locais". - É verdade. As informações foram repassadas à Abin (Agência Brasileira de Inteligência), às Forças Armadas e à Polícia Federal - disse o coronel Freire. Chiquinho: denúncia
é infundada
- Não tenho conhecimento e gostaria de ter sido informado sobre isso. Não tenho o menor conhecimento sobre essa associação. O advogado de Chiquinho, Nélio Andrade, criticou o não prosseguimento imediato das investigações do Cisp. Para ele, se as investigações tivessem ido até o fim, estaria provado que seu cliente não tem envolvimento com o tráfico: - Ele nunca foi chamado. Se (as investigações) tivessem prosseguido, estaria ainda mais que provado que ele não tem, não teve e nunca terá envolvimento com o tráfico. Vamos apurar a responsabilidade de qualquer um que ataque a honra dele. Este documento mostra que ele nem foi a uma reunião onde estavam pessoas deste grupo. Feitosa, que foi candidato a deputado federal em 1998, disse que ainda é presidente da Associação de Moradores de Nova Brasília, mas não tem envolvimento com o tráfico. Ele não é indiciado por crime e, segundo afirmou, jamais foi chamado para falar sobre a investigação. Ele também nega conhecer Márcio Nepomuceno: - Sou trabalhador, não conheço o VP. Não conheço esse bandido, mesmo quando ele estava aqui.
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