Sargento confirma denúncia de ligação de Chiquinho com bandido 
Tribuna da Imprensa, 15 de agosto, 2003

O sargento Carlos Henrique Gomes Sátiro, do 16º Batalhão de Polícia Militar (Olaria), confirmou uma denúncia que pode comprometer ainda mais o secretário estadual de Esportes, Francisco de Carvalho, o Chiquinho da Mangueira. Em depoimento ontem à Comissão de Segurança Pública da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), ele declarou que Chiquinho intercedeu em favor de um comerciante, suspeito de traficar armas e drogas, em 1991, na Favela Vila Cruzeiro.

"Ele disse que o homem era gente boa", revelou o PM. O secretário não foi localizado para comentar a acusação. Na época, o homem que o sargento investigava foi identificado apenas por Mauro Coroa. Dono de um depósito de bebidas na Vila Cruzeiro e de caminhonetes para fazer frete, Coroa era suspeito de usar o local para esconder armas e drogas e de transportá-las inclusive para o Morro da Mangueira, onde teria amigos.

O sargento contou que, numa madrugada, Coroa passou pelo Posto de Policiamento Comunitário (PPC) em uma caminhonete e não parou ao receber ordem policial. O PM, que era o comandante do PPC, o seguiu até o depósito e, mesmo não encontrando nada suspeito, disse que cedo ou tarde, iria prendê-lo.

Três dias depois, Chiquinho foi procurá-lo no PPC para saber o que tinha acontecido com o comerciante. "Ele me cumprimentou e disse: Meu nome é Francisco. Moro na Mangueira e tenho amigos aqui na Vila Cruzeiro. Sou amigo do Mauro Coroa há algum tempo. Gostaria de saber o que ele fez porque ele é gente boa. Pedi que ele se retirasse".

Como era comum pessoas procurarem a polícia para perguntar sobre criminosos, o sargento não deu importância à visita de Chiquinho. Só o reconheceu anos depois em fotos nos jornais. "Hoje tenho convicção de que era ele". Coroa morreu pouco depois do episódio, vítima de overdose de drogas.

Documento
Quando viu a "honra da corporação" sob suspeita por causa das denúncias feitas pelo ex-comandante do 4º BPM (São Cristóvão), tenente-coronel Erir Ribeiro da Costa Filho, o sargento Sátiro resolveu relatar por escrito o episódio no PPC. No início deste ano, o tenente-coronel Costa Filho acusou Chiquinho de pedir trégua nas operações policiais no Morro da Mangueira por pressões de traficantes.

O documento, escrito por Sátiro em junho, foi entregue ao comandante do 16º BPM, coronel Lourenço Martins Pacheco, e está na Corregedoria-Geral da PM. Sátiro disse que conhece Costa Filho profissionalmente e não tem "relação de amizade" com ele.

Escutas
Conversas telefônicas entre traficantes que citam o nome de Francisco de Carvalho podem ser outro indício da ligação do secretário com criminosos. Com a autorização da Justiça, a polícia grampeou, no final de 2001, o telefone do traficante Alexander Mendes da Silva, o Polegar, suspeito de ter ajudado no resgate de Aldair Marlon Duarte, o Aldair da Mangueira, preso na Polinter em outubro de 2001.

Em um dos trechos, Polegar menciona a outro suspeito, identificado como Ricardo, que queria a ajuda de Chiquinho (que é mencionado pelos suspeitos por esse apelido) para provar que era inocente na fuga de Duarte. Ele estava em regime de liberdade condicional, e as fitas possibilitaram que Polegar fosse preso em 2002.

Em depoimento à comissão da Alerj em junho deste ano, agentes penitenciários de Bangu 3, na Zona Oeste do Rio, confirmaram que Chiquinho visitava com freqüência os traficantes Polegar e Francisco Paulo Testas Monteiro, o Tuchinha, entre 1997 e 1999. Eles continuam no presídio.


Chiquinho se reunia com presos na sala da direção de Bangu III
Dimmi Amora - O Globo e RJ TV, 13 de junho, 2003

Em depoimento à Comissão de Segurança Pública da Alerj, dois agentes do Desipe confirmaram ter presenciado freqüentes visitas do secretário de Esportes e Lazer do estado, Francisco de Carvalho, o Chiquinho da Mangueira, aos traficantes Francisco Paulo Testas Monteiro, o Tuchinha, e Alexander Mendes da Silva, o Polegar, presos em Bangu III.

Um dos agentes, cuja identidade está sendo mantida em sigilo, que trabalhou no presídio entre os anos de 1997 e 1999, disse ter visto Chiquinho da Mangueira cerca de 20 vezes no presídio. Segundo ele, as visitas aconteciam normalmente nas áreas de segurança ou vigilância, mas também na sala da direção.

O outro agente penitenciário, que trabalhou de meados de 97 até o final de 98, disse que Chiquinho visitou os traficantes uma dezena de vezes, fora do horário de visitas. Os agentes contaram também que certa vez Chiquinho teria ido a Bangu III ao lado de Elmo José dos Santos, então presidente da Mangueira, para entregar camisas da escola de samba e ingressos para o desfile de 98 aos presos.

Em entrevista à reportagem do RJ TV, Chiquinho disse ter ido umas quatro vezes no presídio, à convite do diretor, para tratar do torneio de futebol que haveria lá dentro. "Todas as vezes que estive na unidade assinei documentos. Está tudo registrado", afirmou. O ex-presidente da Mangueira Elmo José dos Santos negou ter ido à Bangu distribuir camisetas e ingressos. Lafayette Fragoso, diretor de bangu III no período das visitas, negou que Chiquinho se encontrasse com os presos.

A comissão investiga se houve pressão política para a saída do tenente-coronel Erir Ribeiro do comando do 4º BPM (São Cristóvão), três meses depois de ter informado, em documento reservado, à cúpula da polícia que o secretário estadual de Esportes estivera no batalhão pedindo-lhe uma trégua no combate ao tráfico de drogas no morro. Chiquinho nega que tenha feito o pedido.

O presidente da comissão, deputado Jair Bolsonaro, disse que já tem provas para encaminhar o pedido de cassação do deputado.


Desfile com Chiquinho
CBN. Um agente penitenciário que trabalhou em Bangu 3 entre 1997 e 1999 afirmou, em entrevista à Rádio CBN, que o secretário estadual de Esportes do Rio de Janeiro, Francisco de Carvalho, entregou convites especiais para o Sambódromo do Rio e camisas da escola de samba Mangueira para o traficante Tuchinha. Na época, Chiquinho de Carvalho era subsecretário de Esportes. Ouça na CBN, aqui


Festeiro (I)
A Câmara dos Vereadores interpelou o prefeito Cesar Maia, ontem, sobre o ''jantar de confraternização'' por ele oferecido, no Jockey, aos desembargadores do Rio. O requerimento de informações, do vereador Mário Del Rei, indaga o custo do rega-bofe, sua motivação e a lista de convidados presentes. [Boechat, 18.06.03, aqui]


Festeiro (II)
A PM comandada pelo secretário Anthony Garotinho calculou em três mil os presentes ao ato "Acorda Lula", organizado pelo ex-governador. Entre os que protestavam, levados em troca de lanche e camisetas, havia pessoas, como o servente Iranildo da Silva, que desconheciam o motivo do ato. Havia ritmistas da Mangueira: o secretário de Esportes, Francisco de Carvalho, desfilou entre os manifestantes. [O Globo, 18.06.2003, pág. 1 e 10]
Pedida a cassação de Chiquinho
Jornal do Brasil, 5 de setembro, 2003

Por quebra de decoro parlamentar, a Comissão de Segurança Pública da Assembléia Legislativa do Rio aprovou, ontem, por três votos a dois, a cassação do secretário estadual de Esportes e Lazer, Francisco de Carvalho, o Chiquinho da Mangueira, além de sugerir a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o caso. O deputado estadual licenciado é suspeito de envolvimento com traficantes.

Enquanto o ex-comandante do 4º BPM (São Cristóvão) Erir Ribeiro acusou Chiquinho de lhe pedir trégua no combate ao tráfico no Morro da Mangueira, agentes penitenciários de Bangu 3 disseram que o secretário fazia visitas constantes aos traficantes presos, demonstrando intimidade com eles em conversas reservadas.

O relatório original do deputado Flávio Bolsonaro (PP), presidente da comissão, sofreu algumas modificações. Uma delas foi sugerida por Paulo Ramos (PDT): a supressão dos artigos que classificavam como suspeita a defesa que os deputados Noel de Carvalho (PMDB) e Geraldo Moreira (PMDB) e o juiz da 1ª Vara da Infância e Juventude, Siro Darlan, fizeram do secretário de Esportes e Lazer em depoimentos. O parecer foi enviado à Mesa Diretora para apreciação - que pode arquivá-lo ou determinar a abertura de processo na Comissão de Constituição e Justiça.

"Também vejo indícios de quebra de decoro. Mas uma comissão permanente não tem competência para produzir um relatório que pode resultar na cassação de um deputado", disse Délio Leal (PMDB), que deseja anular o parecer vencedor.


Presidente da Comissão de Segurança da Alerj pede cassação de Chiquinho
Dimmi Amora, O Globo, 2 de setembro, 2003

O deputado Flávio Bolsonaro (PP), presidente da Comissão de Segurança Pública da Assembléia Legislativa, apresenta hoje um relatório pedindo a cassação do deputado licenciado Francisco de Carvalho, o Chiquinho da Mangueira, que ocupa a Secretaria de Esportes. Para Bolsonaro, Chiquinho quebrou o decoro parlamentar por ter “uma relação com traficantes incompatível para um cidadão comum e inaceitável para um parlamentar”.

Relatório será submetido a outros membros da comissão
O deputado submeterá o relatório aos outros quatro membros da comissão: Délio Leal (PMDB), Noel de Carvalho (PSB), Paulo Ramos (PDT) e Carlos Minc (PT). Ouvidos ontem, os deputados Minc e Ramos disseram que também acham que Chiquinho quebrou o decoro. Já Noel de Carvalho considera que Chiquinho não quebrou o decoro parlamentar. Délio afirmou que, por questões regimentais, não participou dos trabalhos porque considerava que deveria ter sido aberta uma CPI.

O relatório é sucinto e conta os principais fatos ocorridos durante os últimos três meses e meio, desde a exoneração do comandante do 4 BPM (São Cristóvão), tenente-coronel Erir Ribeiro da Costa Filho, em maio. Na época, ele fez um discurso afirmando que foi exonerado por pressão política e saiu detido do quartel.

No dia seguinte, O GLOBO mostrou um documento reservado em que ele informara, em fevereiro, que Chiquinho foi ao batalhão pedir uma trégua para o tráfico da Mangueira. Desde então, surgiram novos documentos e testemunhas relacionando o deputado a traficantes. Chiquinho durante todo o tempo negou o pedido, dizendo que foi à reunião apenas para pedir que houvesse planejamento nas operações da PM, porque elas estavam levando insegurança ao morro durante o horário escolar.

Deputado teme ação da bancada governista
Pelo regimento da Casa, qualquer deputado pode apresentar um requerimento indicando a quebra de decoro parlamentar de um colega. Flávio Bolsonaro informou que pretende ter a assinatura da maioria da comissão para que o requerimento tenha mais peso. Segundo ele, há uma pressão da bancada governista para que Chiquinho não sofra punição:

— A comissão fez a sua parte e temos um relatório fundamentado do caso. Espero que não seja utilizado pela bancada do governo como moeda de troca de cargos e benefícios e acabe sendo arquivada esta grave denúncia.

Para o deputado Noel de Carvalho, os deputados da oposição tentaram confundir “convivência com conivência”. Segundo ele, Chiquinho é obrigado, para conduzir seu projeto social na Mangueira, a conviver com traficantes, mas jamais teve conivência com qualquer um deles.

O processo na Alerj

MESA DIRETORA: Depois da reunião de hoje, o destino do secretário e deputado licenciado Chiquinho da Mangueira estará nas mãos do presidente da Alerj, Jorge Picciani (PMDB). O requerimento com o pedido de cassação vai ser analisado pela Mesa Diretora, composta por 14 membros. A Mesa tem o poder de arquivar o pedido ou encaminhá-lo para análise da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), cujo presidente é Paulo Melo (PMDB).

PROCESSO: Se chegar na CCJ, será aberto um processo, convocando pessoas e pedindo provas documentais. Depois dos depoimentos, o presidente da CCJ faz um relatório, podendo pedir o arquivamento ou indicar a quebra de decoro de Chiquinho. A quebra de decoro pode ser punida com advertência, suspensão temporária do mandato e cassação. A punição é decidida pelo plenário por maioria qualificada, ou seja, o mínimo de 36 votos dos 70 parlamentares eleitos.

MAIORIA: Tanto na CCJ como na Mesa Diretora, a oposição ao governo é minoria. Segundo deputados da Casa, isso não significa que o governo seja maioria, já que os deputados seguem a orientação do presidente da Casa, Jorge Picciani (PMDB).


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