De olho na Alca, Bush aperta o cerco a Cuba
José Arbex Jr.

Cuba, mais do que nunca, está em perigo. Multiplicam-se os sinais de alarme. O mais claro foi dado no dia 18 de maio, pela rede de televisão estadunidense ABC, que, citando um "alto funcionário do governo", informou que Jeb Bush, governador da Fórida, pediu ao seu irmão George, presidente dos Estados Unidos, que ordene a invasão da ilha. A intervenção de Jeb não é casual: reflete os vínculos da família Bush com a máfia cubana residente na Flórida, Estado que assegurou a eleição de júnior, mediante o recurso a expedientes fraudulentos. Tampouco é casual o fato de um grande número de cubano-americanos ocupar posições-chave no governo federal, incluindo Otto Reich, assessor especial do Departamento de Estado para a América Latina. Esse quadro, por razões óbvias, tornou-se mais sombrio após a invasão do Iraque.

No início de abril, o embaixador estadunidense na República Dominicana, Hans Hertell, esclareceu o vínculo entre as coisas, ao afirmar que a intervenção no Iraque "enviará um sinal muito positivo e exemplo muito bom para Cuba", e que a invasão do país árabe era só o começo de uma "cruzada libertadora que abarcará todos os países do mundo, Cuba incluída". Indagado por jornalistas, o secretário da Defesa Donald Rumsfeld declarou que Cuba "por enquanto" não teria o mesmo destino do Iraque, "mas, bom, se no futuro constatássemos que em Cuba há armas de destruição em massa, então, teríamos de agir". Repete-se, assim, o mesmo velho esquema que preparou a intervenção no Afeganistão e no Iraque. Consiste em criar uma atmosfera de tensão, mediante a alusão a crises e confrontações fictícias, observa o jornalista cubano Manuel Medina: "Eles mudaram só o ritmo e a freqüência. Aconteceu em Granada, no Panamá, em Kosovo, no Afeganistão e, há pouco, no Iraque".

A Casa Branca, recorrendo a um cinismo sem limites, acusa Cuba de promover, artificialmente, uma "crise migratória" nos Estados Unidos, mediante o envio, para a Flórida, de massas de imigrantes ilegais. O objetivo seria gerar naquele Estado uma situação social insustentável: "Se houver uma imigração volumosa, ilegal e desorganizada, será nossa responsabilidade responder. Cuba ameaça uma crise migratória na qual não estamos interessados", afirma Kevin Whittaker, chefe do escritório de Cuba no Departamento de Estado. Pena que esse senhor se esqueceu de esclarecer que, durante os últimos quarenta anos, Washington estimulou a emigração ilegal de Cuba para seu território, mediante a aplicação da chamada Lei de Ajuste. Imigrantes cubanos ilegais são os únicos que recebem, automaticamente, permissão para permanecer indefinidamente nos Estados Unidos. Apenas para comparar, os emigrantes mexicanos ilegais recebem tratamento subumano, quando não são simplesmente assassinados ao tentarem cruzar o rio Grande. Agora, a Casa Branca quer transformar esse assunto em pretexto para a invasão.

Dentro de Cuba, os preparativos da invasão são comandados por James Cason, chefe da Seção de Interesses dos Estados Unidos em Cuba. Cason é o encarregado de recrutar e organizar agentes provocadores e, se possível, "grupos de resistência" - como foi o caso do Exército de Libertação do Kosovo (ELK), durante a Guerra da Iugoslávia, e da Aliança do Norte, no Afeganistão, ambos conhecidas organizações de narcotraficantes. Os três "dissidentes" fuzilados pelo regime de Fidel Castro eram criminosos comuns, parte do lumpesinato integrante da rede recrutada por Cason. Isso, por si só, não justifica nem torna aceitável a aplicação da pena de morte, mas explica o seu contexto. A execução abriu brecha para que "especialistas", "comentaristas" e "humanistas" se apressassem em condenar a própria revolução cubana, apresentando-se como virgens horrorizadas com o "totalitarismo" de Fidel Castro, com a mesma despudorada sem-vergonhice com que ocultam, ou no máximo minimizam, as violações dos direitos humanos praticadas pelos Estados Unidos e aliados.

Também no campo da mídia, portanto, repete-se a operação muitas vezes já vista no passado. Quem não se recorda das dezenas, centenas, milhares de artigos de condenação à violência do Taleban no Afeganistão, quando se preparava a invasão daquele país? E agora? Alguém se lembra de ter lido alguma denúncia sobre os narcotraficantes da Aliança do Norte empossados por Baby Bush? Ou será que a Aliança do Norte se tornou sóbria respeitadora dos direitos humanos? Ou então: quantos dos intelectuais e humanistas que condenaram o Taleban por ter cometido a bárbara explosão da estátua gigante de Buda proclamaram o seu horror face à destruição das riquezas arqueológicas do Iraque promovida pelos Estados Unidos?

Em reação à sensação de perigo que paira no ar, vários ganhadores do Prêmio Nobel, intelectuais e artistas famosos da escritora Rigoberta Menchú ao ator Danny Glover , divulgaram um apelo em defesa da revolução cubana, no início de maio. Depois, foi a vez de dezenas de intelectuais respeitados incluindo István Mészáros, Samir Amin e Marta Harnecker , todos participantes do encontro Karl Marx e os Desafios do Século 21, realizado em Havana, lançarem um novo manifesto. Não é apenas a brutalidade de Bush que cria a sensação de perigo iminente. É, sobretudo, o fato de que o cerco a Havana é coerente com a estratégia adotada pela Casa Branca para a América Latina, que combina a multiplicação de bases militares com pressões para a formação da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA).

Esse é um ponto central da atual conjuntura internacional, e permite compreender as razões de Bush para promover um ataque sem tréguas a Cuba. Com a economia em séria crise, os Estados Unidos elevam ao máximo a pressão pela ALCA, como tentativa de ganhar fôlego. Como parte dessa estratégia, e para demonstrar a sua urgência, os Estados Unidos exigem que os países da América Central também formem uma área de livre comércio (Cafta, na sigla em inglês). A idéia é aprofundar o processo de subordinação das economias daqueles países aos interesses das transnacionais estadunidenses, e ao mesmo tempo isolar o Brasil no contexto latino-americano, como forma de aumentar as pressões sobre o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Nesse contexto, Cuba aparece como um dado insuportável para Bush. É intolerável que uma pequena ilha desafie a superpotência, não por uma questão econômica, mas por seu aspecto simbólico. A queda de Cuba teria o significado de uma catastrófica derrota para os povos latino-americanos, e pavimentaria, por isso, o caminho para a implantação definitiva da ALCA.

É isso, precisamente, que coloca para cada latino-americano a necessidade de defender a revolução cubana. Não se trata de nenhuma relação de solidariedade abstrata, nem de mero dever moral. Trata-se de sustentar um bastião contra um poder imperial que deseja anexar economicamente todo o hemisfério, e ocupar militarmente as suas reservas de petróleo e biodiversidade. Defender Cuba é defender o Brasil e todos os países latino-americanos contra o inimigo comum.

Lula propõe integração de Havana
"Confesso não ver nenhum sentido no fato de Cuba estar fora desse grupo, mas, como não sei quais são as razões que levaram o país a não ser convidado, vou querer saber", afirmou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dia 24, em Cuzco, Peru. Lula se refere, no caso, ao Grupo do Rio, criado em 1986, como um mecanismo de consulta política de seus dezenove membros da América Latina e do Caribe. No próximo ano, o Brasil assumirá a presidência do grupo. Com isso, abre-se um caminho para que Cuba rompa quatro décadas de total isolamento diplomático a que foi submetida no hemisfério, por pressão dos Estados Unidos.

Ao discursar, no encerramento da 17a reunião do fórum, no Parque Arqueológico de Saqsaywamam, no Templo de Adoração ao Sol, Lula afirmou: "Pretendo consultar todos os membros do Grupo do Rio para que Cuba possa participar pelo menos como convidada especial do nosso encontro". A proposta de Lula ganha ainda mais significado quando se recorda que, pressionados pela Casa Branca, México, Chile, Paraguai, Guatemala, Uruguai, Peru e Costa Rica votaram a favor de uma resolução que pedia o envio de um representante das Nações Unidas para a ilha, com o objetivo de investigar a situação dos direitos humanos.

Participam do grupo: Peru, Brasil, Argentina, Bolívia, Colômbia, Costa Rica, Chile, Equador, El Salvador, Guatemala, Guiana, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, República Dominicana, Uruguai e Venezuela.

José Arbex Jr. é jornalista.


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