| Grande decepção: veritas
Petrônio Souza, 1 junho 2003 Uma das mais belas passagens da nossa literatura nacional está nas páginas de “Grande Sertão: Veredas”, obra mestra do mestre da brasilidade João Guimarães Rosa, o encantando. No longínquo sertão mineiro, Riobaldo filosofa: “...Medo de errar sempre tive. Medo de errar é que é a minha paciência...”. Lula não tem esperança de mudar, mas medo de errar, medo de botar o Brasil nos trilhos do desenvolvimento, de realizar o projeto político que ele havia declarado antes das eleições, um plano voltado para os interesses desenvolvimentistas nacionais. Como ele mesmo disse, a vida o fez mudar. Nem de longe lembra o destemido líder trabalhista. Lula não tem esperança de colocar em prática as suas velhas e sinceras convicções e tornar o Brasil uma grande nação, retomando o nosso crescimento que anda na casa desmoralizadora do 1% ao ano. O que falta ao Brasil hoje é incentivar e valorizar a produção, o capital produtivo e não o especulativo. O presidente justifica que está procurando dar segurança (sic) ao investidor estrangeiro, com a redução da inflação e manutenção da política entreguista de FHC, mas vai lá e pega empréstimos ao FMI. Em menos de cinco meses de governo já foram dois. Ora, como pode ter credibilidade para o investidor internacional um país devedor? E a alta dos juros? Ela não privilegia a produção e sim a agiotagem internacional, especuladores vorazes que rodam o mundo atrás de economias frágeis e juros altos, que entram aqui num dia, saem noutro, muitas vezes multiplicados, sem gerar um só emprego e sem pagar um só imposto. A quem Lula realmente quer dar credibilidade? Os jornais noticiaram: juros no cheque especial chega a 178% ao ano. Isto não são juros, é roubo. E os bancos que nunca lucraram tanto em toda a história do Brasil como durante e depois da era fernandista, continuam enfiando a mão no bolso da classe trabalhadora, que não vê aumento digno há pelos menos 8 anos e são assombradas diariamente pelo fantasma da inadimplência, que registraram números recordes neste primeiro semestre. Por outro lado, Dona Krueger, a xerifona do FMI aqui empossada, bramiu alto: “Os juros não podem baixar”. Afinal, quem está no governo, Lula ou o capital internacional? Sim, por que Dona Krueger é a personificação, a encarnação do poderio internacional que vem há anos ditando as diretrizes da nossa política nacional e o governo aceitando, levando o Brasil para esta barafunda que está aí: 15 milhões de desempregados, 63 milhões de indigentes - gente vivendo abaixo da linha da pobreza, com menos de US$ 1,00 por dia, ou seja, R$ 3,00, PIB decrescente e nenhuma perspectiva de mudança. Quantos destes 63 milhões votaram na derrota deste modelo político imperialista, que o candidato petista representava? Muito mais que na vitória de Lula, os brasileiros votaram na derrota da era FHC, era que vendeu/doou o Brasil em nome de uma política apátrida, chamada de neoliberalismo, que Lula, insiste em não acabar. Por que será?! Petrônio Souza é escritor, produtor artístico e fotógrafo. [petroniosouza@ig.com.br]
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