O ex quase
Laerte Braga, 1 junho 2003

O Brasil é um país de ex. Ex-vice, ex isso, ex aquilo, ex o diabo. Ou de vices. Há tempos ouvi um cidadão sério, decente, mas contaminado por esse sintoma de autoridade, necessidade de título, telefonar para o síndico do prédio vizinho, a propósito de um copo caído numa área do seu prédio onde era síndico, abrir a conversa assim: “vamos conversar de autoridade para autoridade”.

Jô Soares, nos velhos tempos do “Faça Humor não Faça Guerra”, tinha uma personagem que dizia o seguinte: “vice não é nada, vice é vice”. Num belo dia tratou dos ex. “Ex já foi, não é”.

Existe uma terceira categoria, digamos assim: a dos ex quase. Ex quase vereador, ex quase deputado, ex quase presidente, ex quase qualquer coisa. Via de regra o ex quase disputa ou eleição ou indicação para cargos no poder público, não alcança, mas registra a disputa no currículo.

O caso mais interessante que conheço é o ex-deputado Milton Reis. Amigo de Tancredo queria ser secretário de Transportes do governo daquele, em 1982. Tancredo montava o secretariado e Milton chegou com vários jornais onde jornalistas amigos dele e a pedido dele, davam como certa sua nomeação.

Perguntou a Tancredo como é que faria perante seu eleitorado se não viesse a ser nomeado. Tancredo foi direto: “vamos lá fora, os jornalistas nos esperam e vou resolver o problema”. O então governador eleito de Minas disse o seguinte aos jornalistas: “o deputado Milton Reis, mineiro sério, amigo leal, foi convidado para ser o secretário de Transportes, mas recusou o cargo, permitindo um leque de alianças que favoreça Minas no processo político”.

Colhido de surpresa Milton Reis não teve alternativa: “Recusei por patriotismo”. Esses caras têm uma capacidade fantástica de dramatizar sempre superdimensionando a importância que verdadeiramente têm. O patriotismo então é a preferida para justificar objetivos não alcançados. Em seguida vem aquela: “fui miseravelmente apunhalado pelas costas e com isso o povo perde”. Ou uma ou outra, é infalível a desculpa.Juiz de Fora tem presenciado alguns lances nessa direção do ex quase.

Um ex-presidente do PT, burocrata de carreira, mas especialista em fofoca, punhaladas, usar as pessoas, virou especialista nesse negócio de ex quase. Ocupando uma secretaria por conta de acordos e pela capacidade de dizer sim ao poder, tem obsessão por dizer que vai ser. Até agora, felizmente, só ex-quase.

Todas as vezes que vem à cidade divulga notícias do tipo “fui decisivo para a escolha do primeiro ministro negro do STF”. Estou fazendo isso, aquilo, Lula me chamou, me ouviu, enfim, derrotado na própria cidade, secretário por conta de injunções das forças do partido, cotas de cada uma, sem nunca ter disputado uma eleição, aliás minto, disputou uma de vice, a de 2000 como vice-prefeito na chapa do seu partido, passa a impressão que o presidente quando acorda liga para ele e pergunta: ponho o pé direito ou o esquerdo primeiro no chão?

Plantou a notícia que seria ministro, na pasta ocupada por Benedita da Silva. O fato preocupou seriamente alguns setores do PT em Juiz de Fora, temerosos que o desastre viesse a ser real. Por azar dele, na mesma semana em que divulgou o fato, veio a Juiz de Fora um ministro de verdade e ao ser perguntado caiu na gargalhada: “O quê? Isso é piada? Não tem a mínima chance. Nem sequer foi cogitado”. É o ex quase.

O deputado José Bonifácio, o velho, aquele que como todos os Andradas descendentes dele era “mais Zezinho que Andrada”, costumava dizer na sua mediocridade de servir aos senhores das elites que nenhum deputado podia votar sem consultar seu burgo, sua cidade, ali estavam os seus votos.

Carlos Castelo Branco caiu de pau em cima. O verdadeiro tamanho político do então líder da ditadura militar na Câmara. Não era maior que o provincianismo que caracterizava sua carreira.

O ex quase ganhou um cargo nacional mas continua no âmbito do município que não é bem uma província, pelo contrário, como Barbacena bem grandinho. A cabeça do ex quase é que é provinciana.

É um dos tipos folclóricos da política, no caso do deputado Milton Reis, um bom sujeito. Mas é um problema em se tratando de burocratas. Um perigo danado. Como dizia Bernard Shaw: “se nosso pequeno mundo não nos permite compreender o grande mundo que nos rodeia e nos cerca, é por que ou somos medíocres, ou não conseguimos entender coisa alguma da vida. Ou as duas coisas”.

Laerte Braga é jornalista e analista político. [laerte.braga@uol.com.br]


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