Cada dia mais difícil
Laerte Braga, 6 junho 2003

As atitudes de figuras de ponta do governo Lula sugerem que as chances de recuperação são exíguas. O que há é um simulacro demagógico de preocupação social, enquanto entregam o resto do País ao FMI e aos banqueiros internacionais.

A reforma da Previdência é uma aberração, viola flagrantemente o parágrafo 4º do artigo 60 da Constituição que proíbe emendas constitucionais que firam direitos e garantias individuais. O discurso do novo presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), ministro Maurício Corrêa vai nessa direção e a crítica ao Judiciário feita pelo deputado professor Luizinho, além de desprovida de qualquer sentido e argumento lógicos, é uma tentativa solerte e baixa de incompatibilizar aquele poder com o povo brasileiro.

O tal professor Luizinho foi um dos artífices do tucanato no PT, no Congresso Nacional do partido, em dezembro de 1999, quando comandou alguns setores para votar contra o FORA FHC, FORA FMI. Quando acorda abre a janela e olha a biruta. Sua opinião é a direção do vento. Com toda a certeza exerce seu último mandato. Pelo menos não volta com o voto da esquerda. É direita brava e a área já está congestionada.

Afirmar de forma cínica e despudorada que o Judiciário está indo contra a vontade do povo é repetir as táticas de FHC, tentar criar um fato consumado.

O mínimo que se esperava de um governo que se presume popular (não é não, é do FMI) é que olhasse para os direitos e garantias individuais. Há decisão da Suprema Corte considerando a taxação de inativos ilegal, logo, a proposta é ilegal, sem falar no viés imoral, considerando que Lula/FHC pretendia ser só Lula. Ou o que foi Lula.

Outro que joga fora sua biografia é o deputado Aldo Rabelo, líder do governo na Câmara. Declarou que o dito governo não vai aceitar emendas que modifiquem a “espinha dorsal” da proposta da reforma. Em seguida fala em debate.

Que debate? O ministro Berzoini recusou-se a receber o senador Gilberto Paim que levava para debate uma proposta alternativa de reforma da Previdência. Sequer quis tomar conhecimento.

Lula, lamentavelmente, é uma falácia. Um embuste. Um líder que se mostra fraco, sem vontade própria, teleguiado, controlado e dirigido por José Dirceu e seus principais acólitos, Palocci e Genoíno.

A pressão exercida pelo ministro chefe da Casa Civil e tutor do presidente da República, para evitar a CPI do BANESTADO (Banco do Estado do Paraná), 30 bilhões remetidos ilegalmente para o exterior, torna-o cúmplice desse ato de corrupção. Os fatos foram levantados já no governo FHC pela Polícia Federal, abafados pelo diretor tucano Agílio Monteiro (foi candidato a deputado e perdeu) e agora, quando as investigações chegavam ao seu fim, Lula sentou em cima e José Dirceu controlou o esquema no Congresso.

Tudo bem se Lula tivesse sido eleito para fazer isso. Só que durante toda a campanha falou o contrário e, assim, mentiu. Como tem sido dito em vários setores, os brasileiros fomos vítimas de estelionato eleitoral.

O que há de concreto na reforma da Previdência é que a proposta do governo resulta de reunião de investidores norte-americanos com Lula e sua cúpula, antes da posse, quando o acordo com o FMI, feito em julho do ano passado, foi renegociado, com algumas concessões ao presidente brasileiro. Uma aliás: a anulação do acordo que cedia a base de Alcântara. O resto todo foi exigido, imposto e o presidente eleito apenas acedeu, borrou-se ante a ameaça de retaliação daqueles investidores e assim, caiu de quatro. Não conseguiu levantar até hoje.

As pesquisas de opinião pública que revelam altos índices de aprovação ao governo já foram objeto de análises de especialistas e há unanimidade em advertir que terminado o marrom glacê dos primeiros meses, vem o osso duro de roer da realidade. E nessa, Lula vai estrepar-se. Não conseguiu ser Lula, mas um arremedo de FHC. Até um empresário corrupto como José de Alencar dá broncas. Vice-presidente nas alianças montadas pelo gauleiter José Dirceu.

Lula começou a fazer parte daquele time que acha que Bolsa de Valores tem alguma importância no contexto de um governo presumidamente, só presumidamente, popular. Toda e qualquer discussão de projetos do governo se dá pelo lado fiscal, contábil, nunca pelo social.

O programa Fome Zero, revelam hoje os principais jornais do País, está cadastrando listas de cabos eleitorais de deputados em troca de votos para a reforma. É compra de votos pura e simples. Só isso.

Essa conversa que é até 31 de dezembro quando sairemos do sufoco, é a mesma de FHC e seus cinco dedos na campanha de 94. Os dedos eram de ave de rapina.

Lula, como tantos outros, mostra-se menor que os desafios que enfrenta e é presa fácil de oportunistas sejam do tamanho de José Dirceu, ou do tal professor Luizinho. Figuras lamentáveis.

Não há como negar o que é uma evidência. Cristalino. Transparece a ponderáveis setores da esquerda brasileira e, logo logo, vai ser percebido pelo povo. O diabo é que José Genoíno fala como se esquerda fosse: “ser de esquerda é taxas os inativos”. O preço vai ser pago por todos, na aventura do trio paulista. Quarteto aliás, pois Lula é pernambucano de nascimento, só.

Laerte Braga é jornalista e analista político. [laerte.braga@uol.com.br]


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