Reforma recebe críticas de governistas em seminários

21 maio 2003 | Deputados que participaram hoje do seminário "A Reforma do Sistema Previdenciário Brasileiro - A Contribuição do Legislativo" temem que as novas regras para a aposentadoria do servidor público propostas pelo Governo provoquem uma enxurrada de aposentadorias. Promovido pela Ouvidoria Parlamentar e com apoio da Comissão de Seguridade Social, o seminário prossegue amanhã, das 9 horas às 18 horas.

Duas mudanças são consideradas extremamente graves pelo deputado governista Arlindo Chinaglia (PT-SP). Uma delas é a que altera a fórmula de cálculo do benefício do servidor público, adotando a média das contribuições ao longo da vida profissional. Hoje, a aposentadoria é igual à ultima remuneração do servidor, desde que ele esteja há dez anos no cargo. A mudança vai reduzir muito o benefício.

O outro ponto questionado pelo deputado é o fim da aposentadoria proporcional e da atual regra de transição, que estabelece idade mínima de aposentadoria de 48 anos para mulher e de 53 anos para o homem. O Governo aumenta esse limite em sete anos. Para Chinaglia, essa regra pode comprometer a aposentadoria de quem já tem o direito a aposentar-se mas ainda não tem idade mínima, fazendo com que tenham de trabalhar por mais tempo. Para ele, nesses casos, a transição é necessária. O deputado teme que essa lacuna possa provocar uma avalanche de aposentadorias. "É muito melhor aposentar-se agora, proporcionalmente, do que esperar para ter uma aposentadoria integral, mas que será menor do que a proporcional", compara.

Direitos adquiridos
Para a deputada Jandira Feghali, que também participou do seminário, o foco da Reforma está errado porque desmonta o Estado brasileiro e o serviço público, ao quebrar direitos adquiridos. Feghali também acredita que, por medo das novas regras, os servidores públicos farão fila para se aposentar. "Se essa reforma passar como está, vamos transformar a aposentadoria do serviço público em capital de risco e vamos ajudar a desmontar o Estado, favorecendo o mercado de capitais e prejudicando o trabalhador brasileiro", defende.

A deputada considera perverso o cálculo de idade mínima para a aposentadoria dos servidores públicos proposto pelo Governo. Ela também critica o fim da aposentadoria integral, a taxação dos inativos e a previdência complementar privada.

Jandira defende uma reforma inclusiva, que assegure um programa mais distributivo, capaz de incluir o trabalhador rural sem que ele precise comprovar a contribuição, e que inclua também os 57% dos trabalhadores autônomos que não contribuem para o Regime Geral da Previdência Social.

Déficit é falso
A Comissão de Seguridade Social também promoveu hoje outro seminário para debater o tema, em conjunto com a Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior (Andes). Trata-se do Nono Encontro Nacional Sobre assuntos de Aposentadoria, onde representantes de aposentados e servidores do serviço público fizeram duras críticas à Reforma proposta.

A professora da UnB Ivanete Ferreira, que realizou uma palestra sobre "Seguridade Social e Assistência", disse que não faltam recursos na Previdência. O problema, segundo ela, é o uso indevido do dinheiro arrecadado. Ela defende a idéia de que a Seguridade Social, como proteção ao cidadão, ainda não foi colocada em prática, e que por isso o Governo está desrespeitando a Constituição. "Se o Governo assumisse a idéia de Seguridade Social respeitando os princípios constitucionais de receita, não falaríamos em déficit e não precisaríamos estar cortando recursos", aponta.

O deputado Lindberg Farias (PT-RJ) concorda com a afirmação da professora. Para ele, a Previdência deve incluir, em vez de excluir. "Discordo dos rumos da Reforma da Previdência, assim como a maioria da entidades do funcionalismo público federal. O problema é que estão transferindo recursos da CPMF e da Cofins para pagar a dívida externa", denuncia.

O diretor da Andes, professor Mário Luiz Alves, disse que a entidade defende a paridade entre ativos e aposentados e a não-contribuição previdenciária de inativos.

História
A primeira célula da Previdência no Brasil surgiu em 1923, com a criação, pela lei Elói Chaves, da Caixa de Aposentadoria e Pensões dos Trabalhadores de Ferrovias. Foi o primeiro fundo público de Previdência, mas era restrito àquela categoria com emprego formalizado. Em 1933, o sistema começou a ser ampliado, com a criação do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Marítimos, estendido à outras categorias a partir de 1934. Foi nessa época que o Estado começou a contribuir com o sistema, em esquema tripartite: participavam Governo, empresa e trabalhador. Em 1966, foi criada a Previdência Social Brasileira, com a unificação dos seis institutos de aposentadorias e pensões no INPS.

A professora Eli Lola, da Universidade Federal de Minas Gerais, explicou que as campanhas de desmoralização e estigmatização da Previdência começaram no início da década de 1980, a partir de quando passou a ser considerada um sistema falido. Mas foi em 1988, com a promulgação da Constituição Federal, que começou o embate sobre o modelo previdenciário ideal. A Constituição determinou que a Previdência seria direito de todo cidadão. Segundo Eli, as mudanças ocorridas desde que foi criado o benefício da aposentadoria enfraqueceram o conceito de Previdência.

[Por Sâmia Mendes e Patrícia Gonçalves/PR, Agência Câmara]


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