27 maio 2003
Sars e descaso
Emir Sader, Agência Carta Maior

Um médico chinês escreveu a um colega norte-americano que trabalha no Haiti para dizer que o seu trabalho de combate à tuberculose – uma doença que mata incomparavelmente mais do que a Sars, como ficou conhecida a pneumonia asiática – está prejudicado, pois os recursos estão sendo desviados para o combate à gripe asiática. Conforme os recursos não aumentam, o jogo de soma zero privilegia uma doença que afeta pessoas que circulam pelos itinerários turísticos e de negócios, em detrimento da massa da população pobre do país.

Esse é o primeiro problema que a Sars volta a colocar gravemente: a falta de recursos para a saúde pública. Em um mundo onde a tuberculose, a aids e a malária matam 6 milhões de pessoas por ano – quase todas mortes evitáveis com a prevenção –, um viés de classe favorece a canalização de recursos para o combate a essas doenças em favor da pneumonia asiática.

Essa doença nasceu na fronteira entre duas zonas, uma de baixo poder aquisitivo, na China, sofrendo um processo de privatização dos serviços de saúde, e outra de alto poder, com bons serviços de saúde, em Hong Kong. Muitos doentes de Sars foram salvos com tratamento intensivo realizado em excelentes hospitais, enquanto vítimas da doença sem acesso a esses tratamentos morreram rapidamente, demonstrando como as fronteiras de classe afetam profundamente as vítimas de qualquer doença.

Mais profundo e marcante, de qualquer forma, é o contraste entre os cerca de 500 mortos por Sars em mais de três meses, com os 3.000 mortos de malária e os 8.500 mortos diariamente de aids. A falta de recursos e a privatização dos serviços de saúde fazem com que a poliomielite, o sarampo e a malária não sejam erradicados e a aids tenha ganho um caráter de classe, com desaparição nas crianças norte-americanas e aumento africanas e asiáticas.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a tuberculose e a aids como emergências internacionais há mais de uma década, mas tardou dez anos para conseguir criar um Fundo Internacional para combater à própria aids, à tuberculose e à malária.

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “Século XX – Uma biografia não autorizada” (Editora Fundação Perseu Abramo) e “Contraversões (com Frei Betto, Editora Boitempo).


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