| Um encontro de belezas
Petrônio Souza, 26 maio 2003 Era uma confabulação de mineiros, uma reunião de amigos na casa do embaixador da mineiridade, José Aparecido de Oliveira - o Zé de todos os amigos. À mesa, servida das melhores tradições da cultura mineira, sentaram-se todos e, para que ela ficasse mais inspirada, José Aparecido apontou a cabeceira para que tomasse posto o genial Eduardo Almeida Reis. Do lado direito de Eduardo sentou-se o jornalista Carlos Lindenberg, seguido por José Aparecido, eu em frente e do lado esquerdo, Maria Cecília, filha de Aparecido e o deputado cassado pela ditadura militar, Marcos Tito. Depois de muitas histórias políticas e causos inesquecíveis de Conceição do Mato Dentro, Espinosa, Juiz de Fora e Belo Oriente, José Aparecido segurou firme o ombro de Carlos Lindenberg com a mão esquerda, virou-se para nós e falou: - Lindenberg, se o Carlos Castello Branco sagrou-se como o grande cronista político brasileiro, como seu leitor diário afirmo que você só não ficou mais conhecido e reverenciado por todo Brasil porque você optou por ficar aqui em Minas, mas se você tivesse ido morar num grande centro, não tenho dúvida nenhuma de que seria você e nenhum outro, o grande cronista nacional... Eduardo e eu nos entreolhamos, sabíamos exatamente do que o Embaixador falava. Minas sempre foi na história do Brasil o grande Estado produtor de riquezas. Daqui, as nossas pedras preciosas saíram e fascinaram todo o mundo, o nosso ouro, transportados por todo planeta. Nós, sempre mandando para fora nossas riquezas, nossa melhor parte, nossas preciosidades, povoando o mundo com belezas. Os seus filhos, mantendo a tradição ‘exportadora’ do Estado, também tiveram que deixar a terra mãe para brilhar lá fora, perdendo o tom original do brilho. Na arte, deixamos nas mãos de Aleijadinho o entalhe do barroco perfeito, o verso acabado do arcadismo, a Vila Rica brasileira. Infelizmente, o mundo e o Brasil não nos deram o reconhecimento exato da dimensão que no céu do Brasil povoamos. Acreditando em desmentir esta realidade de que os mineiros têm que sair da sua terra natal para ter o reconhecimento merecido e acreditando na interiorização da cultura brasileira, o poeta Adolfo Maurício idealizou no ano de 1996 o Encontro Mineiro dos Escritores, realizado sempre no Sul de Minas, terras das águas que ‘matam’ a sede do Brasil. Hoje, o Encontro Mineiro dos Escritores está em sua 6º edição, realizado sempre de forma hercúlea pelo obstinado escritor. Neste ano, será realizado entre os dias 10 e 12 de julho, em Cruzília, terra do lendário Barão de Alfenas e dos cavalos manga-larga. O evento contará com debates e palestras dos escritores: Aristóteles Drummond, Luiz Giffoni, Ângelo Oswaldo, João Paulo Cunha, Luiz Vilela, Guido Bilharinho, Luiz Roberto Nascimento e Silva, José Maria Rabelo, entre muitos outros nomes da nossa literatura. O que nós precisamos com urgência em Minas e no Brasil é acreditar e incentivar a interiorização da nossa cultura, da nossa arte mais verdadeira, protegê-la da invasão apátrida dos grandes centros, muitos deles, sem o mínimo traço de brasilidade. Precisamos saber que temos na arte brasileira um estamento, um potentado, uma mina muito mais rica e bela que qualquer mina de ouro. O ouro da nossa história transfigurou-se agora na nossa cultura, na nossa arte, na nossa melhor parte fora, nossa beleza lapidada. As manifestações da cultura brasileira estão protegidas pelo ‘interior’’ do Brasil, onde a invasão dos modismos estrangeiros é menos danosa, por não ter lá uma forma massificada de impor uma nova realidade por meio dos meios de comunicação. E incentivá-la, trazê-la para junto do povo é o que precisa ser feito em caráter de urgência, para que como o ouro da nossa história, ela não vá para longe de nós, nos deixando mais pobre de nós de mesmo. É preciso criar mecanismos por meio das Secretárias de Estado, que sejam obrigatórios aos municípios incentivar e abrigar as mais diferentes formas locais de manifestação cultural. Minas Gerais preserva dentro
de si um estado de beleza, de nobreza, um mundo inteiro povoado e renovado
pelas coisas do nosso povo, coisas cheias de graça, que encantam
a qualquer estrangeiro, e que, como as suas pedras, quando forem lapidadas,
encantarão e iluminarão o mundo inteiro.
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