| Os velhos tempos
Laerte Braga, 26 maio 2003 Antônio Maria, na campanha eleitoral de 1960, em relação ao governo do antigo Estado da Guanabara, foi a um programa de televisão e no seu estilo frente a frente, cara a cara, foi taxativo com Carlos Lacerda: “você é um Judas, só isso, um Judas”. Lacerda começou a campanha com uma frente definitiva sobre Sérgio Magalhães, do antigo PTB e por pouco não perde as eleições. Ganhou com menos de 2% dos votos de vantagem, o que lhe valeu o apelido de “governador 2%”, dado pelo próprio Antônio Maria. No tal programa, como tomou estrondosa vaia, o auditório era de mulheres da CAMDE (Campanha da Mulher pela Democracia), ultradireita, patrocínio de uma empresa, Rei da Voz, acho que era isso, de um amigo de Lacerda, virou-se para a platéia e proclamou: “malamadas”. Um tanto machista para os nossos dias, mas cabível, perfeitamente cabível à época. Maria morreu de paixão e isso é uma virtude extraordinária. Inapagável. Marca de uma personalidade difícil de se encontrar nos dias de hoje, sobretudo no jornalismo. Três ou quatro, um pouco mais. Jânio de Freitas, Clóvis Rossi, Vilasboas Corrêa, estarei sendo injusto com alguns, pouquíssimos e falo do jornalismo praticado nos chamados grandes jornais. Televisão, como dizia Sérgio Porto, “o melhor da televisão é o botão de desligar”. Millôr Fernandes escreveu “n” vezes que “a corrupção começa no cafezinho” e Paulo Francis reiterava volta e meia que “a arma do jornalista é a indignação”. A comunicação é o maior desafio que as forças populares enfrentam nos dias de hoje. Como criar espaço e interessar as pessoas por algo diferente que Big Brother? E no espaço entre uma novela e outra jogar as costumeiras e exaustivas mentiras/verdades do “Jornal Nacional”. Um dos melhores jornais da
televisão brasileira, a antiga Excelsior, tinha como apresentador
o cardiologista Luís Jatobá e entre seus comentaristas, gente
do porte de Nélson Rodrigues e Sérgio Porto. Nélson
e sua tese que “um tapinha não dói” e nem era bem assim,
falava em surras homéricas e Stanislaw proclamando, fechava o jornal
e logo depois entrava um filme: “o filme é bravo, terrível,
chato, é preferível encarar
Sérgio Porto morreu de paixão. O jornal que recebeu prêmios para todos os lados se chamava “De Olho no Mundo”, teve vida curta, foi abortado pela ditadura militar. A imprensa brasileira teve momentos notáveis. Como a reforma, expressão usada muito antes de Lula vir com essas bobagens do FMI para a previdência, idealizada por Alberto Dines no “Jornal do Brasil”. A saída de Dines acabou resultando no triste e deprimente “JB” de hoje. Atribui-se a Boris Casoy a transformação da “Folha de São Paulo” em jornal nacional, existe até uma história engraçada envolvendo Tancredo Neves e Ulisses sobre isso, mas na história dos editores, digamos assim, no Brasil, Dines ocupa o topo. Antônio Maria batia ponto quase que diariamente no Lê Rond Point, do francês Pierre, na avenida Nossa Senhora de Copacabana. Uma noite um bando de mulheres entrou esbaforido restaurante a dentro. Eram mulheres chamadas do bas-fond e Maria ao saber que o problema era polícia mandou que se assentassem à sua mesa com ele e seus amigos. Quando a Polícia chegou, quis prender, foi definitivo: “como prender minha companheira, as companheiras virtuosas de meus virtuosos amigos?” Terminaram todos no distrito. Menos de uma hora, meio Rio de Janeiro foi para a porta da delegacia reclamar da arbitrariedade. Tudo terminou no Rui Bar-bossa, em frente “àquela especializada”, como se dizia, era na rua Paula Freitas. Foi o primeiro a entrar com duas mulheres de biquíni num baile oficial. O baile do Teatro Municipal, carnaval, lógico. Biquíni àquela época só na praia e mesmo assim para mulheres de comportamento pra lá de duvidoso... Houve protestos de falsos moralistas, burguesia, essas coisas, mas JK estava no baile, consultado, ainda deu um abraço em Antônio Maria. Maria andou dando umas “pregadas”, outra expressão da época, nuns capangas de Tenório Cavalcanti. Queriam pegar o jornalista LB Teixeira, da Última Hora. Outras, em capangas de Baby Pignatari, chamado de playboy pois ganhava um milhão de cruzeiros por dia, 30 por mês e andava com atrizes de Hollywood. Descobriu que enquanto se exibia na praia, nos salões, etc, uma das atrizes corria para a casa de Antônio Maria. Pignatari era um idiota rematado. Padrão essas caras de “Caras”, a revista dos inúteis. Existem histórias fantásticas de um Brasil que não existe mais, sobretudo um Rio de Janeiro que desapareceu. Imagine uma cidade maravilhosa ser governada pela versão brasileira de Bonnye e Clyde, ainda mais com a bíblia às mãos. É a decadência total. Urge recuperar o Rio. Uma delas o fogo de Orson Welles e Grande Otelo, outras, o chilique da deslumbrante Ava Gardner no Hotel Glória, ou a revista “O Cruzeiro” exibindo o ferro utilizado por Nat King Cole para passar os cabelos. Isso mesmo, passar os cabelos. Alisá-los. São velhos tempos mas se fazem novos e necessários quando olhamos o cenário desalentador de hoje. E olha que haviam Ibraim Sued, etc, etc. Nem é saudade só, é mais que isso. Oxigênio que se busca quando Garotinho aparece na tevê e diz que vai acabar com o crime, o que, um jornalista português chamaria de auto prisão, se possível. Ou quando Palocci vira Malocci e sai por aí afora fazendo e dizendo besteiras do tipo “no nosso governo o Banco Central já é autônomo”. Vale a personagem de Jô: “coloquem os tubos”. Laerte Braga é jornalista e analista político. [laerte.braga@uol.com.br]
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