Golpe de Mestre!
Renato Kress, 26 maio 2003

Há um tempo venho repisando uma velha idéia minha. Uma que talvez os conscientes.net conheçam bem, senão dos artigos pelo menos dos pequenos detalhes, a minha cisma com os nossos tamagotchis "democráticos", as urnas eletrônicas.

Será que a eleição de um candidato de esquerda no Brasil sagrou mesmo a legitimidade desses ícones da pós-modernidade interiorana? Sim, porque continuo insistindo que nenhum país do mundo possui as tais urnas e é fácil malipular qualquer sistema eletrônico, assim como trocar os disquetes ou eles já estarem pré-gravados com os votos.

Mas e agora? Elegeu-se um candidato da esquerda! E as "malvadas" urnas facilmente manipuláveis - porque são mesmo! - estão com tudo, inclusive com perspectivas de serem implantadas em países europeus! Afinal de contas, qual seria a utilidade de se implementar um mecanismo fraudoso dentro do processo eleitoral se se elege o candidato que deveria ser prejudicado? E desde quando ser eleito é bom? De que país estamos falando? Em que contexto vivemos?

O PT está numa sinuca de bico muito complexa e tenho certeza de que as boas cabeças do partido têm completa consciência disso. Nosso excelentíssimo Inácio recebeu um bloco de estrume da Era dos Fernandos e agora se exige que faça um Rodin, um Michelangelo com essa "matéria prima" econômica, social e política. Além de tudo, para poder governar, o nosso presidente de esquerda precisa de base de apoio no congresso, de maioria direitista. Por essas e outras vemos por aí certas medidas "incoerentes" do partido. Nossa estrutura política está impregnada com essas nossas adoráveis figuraças esses leviatãs estatais: ACM, Sarneys e companhia.

Resumindo: Se o Lula der certo - possibilidade bem remota tendo em vista o malabarismo necessário para transformar o estrume dos fernandos em mármore ou madeira, na melhor das hipóteses - nossos Sarneys e ACMs pulam na balsa do PT com seus discursos sofistas: "Viram? Nos aliamos aos nossos tradicionais inimigos para desenvolver o Brasil, construir um país melhor, etc" e obviamente eclipsarão a imagem do presidente e do PT nos seus estados de origem, veiculando pela mídia baiana, maranhense, alagoana, etc - da qual são proprietários senão direta, ao menos indiretamente - como se esforçaram para mostrar o "bom caminho" para o novo governo.

Se o Lula quebrar - o que é muito provável tendo em vista o estado em que lhe foi entregue o Estado - aí ele pode quebrar sozinho, em paz. Afinal de contas nada como ter material para lançar na mídia a "inépcia, a incompetência do PT para governar". A Veja vai achar o máximo.

De qualquer forma já recebemos, cada um dos brasileiros, uma urna eletrônica goela abaixo, afinal: ela elegeu um presidente de esquerda! Creio que foi a cartada decisiva da direita. Terão tempo para descansar, sair de evidência (roubar muito mais), provar a "incompetência" do PT (fabricada pelos partidos de direita durante anos no poder executivo, minando o terreno para Genoínos e Dirceus pisarem) e ainda legitimaram esse absurdo que é a urna eletrônica.

Renato Kress é co-editor da revista Consciência.Net


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