PT, PDT, Heloísa, Babá e afins
Renato Kress, 23 maio 2003

Na nova perspectiva do quadro partidário político brasileiro, o Partido dos Trabalhadores está se posicionando muito mais à centro-esquerda do que à esquerda. Essa postura já vinha se formando dentro do próprio partido há um bom tempo e foi responsável por parte considerável dos votos de indecisos e mesmo de seguidores de outros partidos que se esmeravam em tentar dar uma imagem de "partido de centro" no Brasil.

O PT não só ganhou votos "conjunturais" de setores da população brasileira desencantados com o neoliberalismo da Era dos Fernandos. Ele mudou de postura, adquiriu uma consciência de que não é possível fazer um Rodin ou um Michelângelo com um bloco de estrume. E foi isso o que a Era dos Fernandos nos relegou, uma economia interna estruturada em dívidas e uma política externa estruturada em subserviência. É preciso trabalhar com as ferramentas existentes. E é por essas e outras que o PT está migrando para uma postura de centro-esquerda.

Essa migração gerará um grande vácuo dentro da esquerda, que se encontra sublocada por pequenos pontos polares e frágeis com propostas fraquíssimas e limitadas, como o PSTU, o PCB e tantos outros. (Não vou citar o circo de horrores do PCO, PRONA e afins).

Para o PDT está sendo o momento ideal para que ele cresça como o partido que simbolizará uma esquerda séria nesse novo quadro político. Sem muita evidência - entre outras porque a Globo tem neuras em colocar o Presidente do PDT, Leonel Brizola, em cadeia nacional - o partido pode parecer enrijecido em uma certa inércia. Mas isso nada mais é do que uma visão rasteira dos acontecimentos.

A ausência de evidência midiática sobre o partido, e o bom desempenho dos seus deputados, apenas dificulta um olhar mais crítico acerca das contradições internas do próprio PDT. Conjuntura que está sendo muito bem trabalhada pelos marqueteiros do partido que já estão veiculando, em horário nobre, dentro da própria Rede Globo, uma propaganda de auto-promoção centrada na questão da coerência, na qual o PDT aproveita-se das convulsões internas do PT (envolvido num processo de rearranjo e de remanejamento dentro de sua nova postura centro-esquerdista) para dar um ar blasé de partido mais "coerente".

Com a nova postura do PT e o vácuo que deixou na esquerda, o PDT tem todas as condições de crescer e preencher esse espaço. A menos que - e essa é uma espectativa frágil - outros partidos de esquerda mudem seus perfis e comecem a parecer um pouco mais inteligíveis, versados e políticos em suas propostas.

Quanto à Heloisa Helena, Babá e Lindberg, creio que sair do PT é deixar de estar em evidência, pelo menos para os dois últimos, o que não é bom. Principalmente para o Sr. Lindberg que já recebeu uma votação enorme no PSTU e não conseguiu se eleger - certas experiências não se esquece. Mas quanto à primeira, talvez a nova postura do PDT agrade mais à sua visão política, bastante diversa do novo verniz petista. Além do quê, o PDT tende a crescer sugando velhos "companheiros" do PT que se identificarão mais com a proposta do PDT. Há quem creia na criação de algum novo partido, mas quando se pensa na proximidade de uma "reforma política" essa possibilidade parece um tanto remota.

Essa rearrumação faz parte do processo político e é só questão de tempo para que, com um leve esvaziamento do PT - e um conseqüente crescimento dos partidos que ocuparão o vácuo na esquerda - o Partido dos Trabalhadores manifeste uma posição com menos possibilidades de ser chamada de "incoerente" pela mídia.

Renato Kress é editor da revista Consciência.Net [renatokress@consciencia.net]


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