| Inana em reprise
Milton Temer Tudo bem. Lula recuperou, no discurso de Ouro Preto, a idéia-força do Estado robusto como melhor agente contra a esbórnia especulativa do ''mercado''. Mas esperança não se nutre de espasmos. E alguém do núcleo decisório do governo tem que acionar o alarme contra a dicotomia insustentável entre o discurso do sonho e a realidade de sua ininterrupta negação. Entre o discurso da mudança e a prática do continuísmo, no desmonte da coisa pública e no privilégio aos banqueiros privados. Hoje, por exemplo, o país vive um momento semelhante a setembro de 2001, quando reportagem no Estadão adiantava tópicos do documento que o Fundo Monetário Internacional apresentaria, no mês seguinte, pleno de louvores à política ''responsável'' de Malan e Armínio Fraga. Segundo os burocratas da instituição, essa política garantia o sucesso ''na gestão das contas públicas do Brasil'', marca do governo FHC. Quem não concordasse com a louvaminha - você se lembra? - era catastrofista. A seqüência da novela, todo mundo conhece. Onze meses depois, em pleno processo eleitoral, o então presidente convocava os quatro candidatos à sua sucessão. Precisava do aval político para a assinatura de um acordo de US$ 40 bilhões com o FMI, indispensáveis à sobrevivência do Brasil como país solvente. Anunciava, ali, o quadro trágico que transmitiria a quem o substituísse no Palácio do Planalto. Quadro que, para citar um só exemplo, já antecipava o prejuízo de R$ 14 bilhões no balanço do Banco Central em 2002, só por conta do atendimento às manobras dos operadores de dólar, sem que ninguém tenha que responder por isso. No benefício de banqueiros, a lei aí não pune. Obriga o Tesouro a cobrir. Pois bem. A inana se repete, com novos atores, no lado brasileiro, e os mesmos do lado de lá. Elogios sobre elogios são divulgados, junto com índices só referenciais para a privilegiada tribo de ''piranhas do mercado'', como os classifica a professora Maria da Conceição Tavares. E que pouco têm a ver com o quotidiano do cidadão comum - C-bond em alta, risco Brasil em baixa, dólar caindo a quase R$ 3. Sobre o mundo real, são outras as manchetes. ''Desemprego em SP atinge a pior taxa no mês de janeiro'', com o subtítulo explicativo: ''Taxa, de 18,6%, equivale a 1,75 milhão de pessoas sem emprego''. O que, segundo o IBGE, mantinha-se no mês seguinte. ''O nível de emprego na indústria brasileira registrou queda de 0,2% em fevereiro deste ano quando comparado a janeiro, já descontados os efeitos sazonais''. Para além, é claro, dos sucessivos aumentos de tarifas de energia e comunicações. Mas os fluxos de capital internacional estão retornando, afirmam, no contraponto, os documentos do Ministério da Fazenda. O que é verdade, porém com ressalva importante, não destacada. Estudo da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais esclarece que a entrada desses novos investimentos de longo prazo se limitou a US$ 2,063 bilhões desde janeiro. Uma redução de US$ 2,63 bilhões, em relação aos US$ 4,695 bilhões captados no primeiro trimestre do ano passado. Mais ainda. Por levantamento do BBV Banco, também divulgado no feriadão, constata-se que, dos cerca de US$ 5,5 bilhões emprestados neste primeiro trimestre, US$ 4,04 bilhões (ou 72,1% do total) terão de ser pagos em até 12 meses. Curtíssimo prazo, portanto. Ou seja: crise anunciada para breve. Crise inerente à continuação do modelo subordinado a fluxos imprevisíveis de capital especulativo, incapaz de buscar formas de capitalização que não as resultantes de cortes em gastos públicos. Como justificativa, o ministro Palocci, como seu antecessor Malan, recorre à mesma ladainha: é a única alternativa. Mas se voltarmos aos arquivos, podemos, pelo menos, ter dúvidas. Aqui no JB, em janeiro de 99, Claudia Safatle reproduzia declarações de Everaldo Maciel, dando conta de cerca de R$ 825 bilhões que escapavam aos instrumentos da Receita, por conta não somente de sonegação mas também de elisão legal. Ora, de lá para cá nada se fez para tampar o ralo. Não é o caso de considerar a prioridade sobre uma verdadeira reforma tributária, cobrando de quem lucra muito e paga pouco, mais importante do que a insistência no ataque à Previdência pública, que o governo Lula incorporou como ''missão''? Desculpem, os novos titulares do ''pensamento único''. Mas ser ''catastrofista'' pode ser a melhor forma de ajudar a atual administração do país a não ser ''continuísta''. Milton Temer é jornalista e ex-senador da República. JB,
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abril 2003
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