| Sars e malária
Emir Sader Algumas centenas de pessoas morreram, nestes últimos meses, vítimas da Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars), a pneumonia asiática, causando pânico e alerta mundial. Afinal, qualquer um de nós pode ser vítima, ao circular pelos aeroportos de Toronto ou de Hong Kong. A medicina prioriza as pesquisas e os laboratórios já salivam com a disposição de colocar no mercado remédios caros de prevenção, diante do pânico provocado e multiplicado todos os dias pela mídia. No entanto, quase 3 mil pessoas (isso mesmo, três mil pessoas) morrem todos os dias (isso mesmo, dias) de malária na África, a grande maioria crianças. No total, um milhão de mortos por ano. Além de matar, deixa um número muito maior de pessoas afetadas por problemas causados pela doença. A malária mata dez vezes mais num dia do a Sars matou até hoje. Nenhum alarme ou pânico mundial é causado por esse massacre, nenhum laboratório se presta a fabricar remédios – até porque já existem diversos tipos – ou baixar os preços dos já existentes para enfrentar a doença. Afinal, são pobres, sem poder de compra, sem influência na mídia mundial, sem poder algum para gritar por suas necessidades elementares de sobrevivência. Os remédios existem, até mesmo o DDT, que ajudou a erradicar a doença em vastas zonas da Ásia e da América Latina nas últimas décadas. Mas o tratamento custa caro para os níveis de renda da África. Um kit de remédio custa cinco dólares, mais ou menos o que um país africano médio gasta por pessoa, a cada ano, em saúde. Ainda não existe uma vacina que previna a malária, mas ela seria facilmente produzida a partir dos conhecimentos que a medicina possui. A dificuldade vem da falta de incentivos do “mercado” para que os laboratórios privados se dediquem a isso. Nem se imagina que algum pesquisador chegue a ganhar o Prêmio Nobel de Medicina por uma invenção dessas, quando estão dedicados a temas como a Sars, que afeta a clientes dos laboratórios, a personagens da mídia e a passageiros dos aeroportos dos vips do mundo. Há carnes e carnes, vidas e vidas, de primeira e de segunda na economia mercantilizada. O conhecimento humano, produzido pela pesquisa na área pública, é privatizado para atender a busca de lucros dos laboratórios privados. O mundo está à venda, na lógica capitalista. Quem tiver dinheiro, que compre. Emir Sader, professor
da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do
Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas
Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “Século XX – Uma
biografia não autorizada” (Editora Fundação Perseu
Abramo) e “Contraversões (com Frei Betto, Editora Boitempo). Publicado
na Agência
Carta Maior, em 13 de maio de 2003.
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