| Um jeguinho que galopa
no coração da gente
Petrônio Souza, 6 de maio de 2003 No começo era apenas um jeguinho bem sem vergonha que ficava passeando pelas ruas silenciosas da pacata cidade, à toa. Enquanto isso, um grupo de jovens bebia na esquina, confabulando contra os desmandos do poder municipal que não realizou naquela data, 1º de março de 1997, a tradicional festa da cidade de Belo Oriente, no leste mineiro. Os meninos ali, confraternizando, confabulando, o jeguinho lá, pastando, alheio à tudo. Um deu uma idéia: “Vamos colocar uma carroça neste jegue com um som e vamos sair pela rua denunciando este descaso com os desejos do nosso povo!”. Estava decidido: Marquinho pintou as camisas com frases de protesto, Sallabery arrumou o som alimentado por uma bateria de caminhão, as gêmeas Glícia e Lícia fizeram as bebidas, batidas, Lagarão enfeitou o jegue e a festa estava armada. Já de noitinha saiu o jeguinho com o som na carroça e o povo atrás, festejando... estava nascendo a festa que ficaria tradicional na pequena cidade, no meio do povo, para o povo, do povo. Era o Jegue Elétrico em seu primeiro ano. O jeguinho ia e muitos se ajuntavam ... começou a chover e as camisas pintadas às pressas descoloriram num borrado enfeitado, como que as suas mensagens de protesto já não valessem mais, pois a festa que estava acontecendo ali era mais verdadeira e bonita que a de qualquer outro. Assim, foi o jegue e o povo da cidadezinha, irmanados por aquele espírito de comunhão dos sonhos e desejos que só os jovens são capazes de sentir. Na praça, quando o jegue parou, a luz da cidade se foi, ficando só ele ali, como uma estrela solitária no negrume lunar, com o som vibrando alto e as luzinhas pisca-pisca de uma árvore de natal, iluminando a festa que acontecia não fora, mas dentro de todos nós. Por um instante, acreditamos que poderíamos tudo, até fazer com que uma noite escura se convertesse no mais iluminado dia, com a luz interior de cada um iluminando o seu próprio caminho. Carinhosamente, aquela história ficou batizada de Jegue Elétrico e muitos outros jegues vieram, todos tentando repetir o espírito do primeiro, aguando dentro da gente os nossos sonhos, que nunca envelhecem. Anos depois, na 7ª edição, o nosso jeguinho já não era mais sem vergonha, agora gozava de um status, já era afamado. Em uma outra cidade, que também é bela até no nome, um grupo de jovens compartilhava o mesmo espírito em que nasceu o nosso Jegue Elétrico. Numa mesa de bar em Belo Horizonte um amigo sugeriu: “nos temos que fazer uma festa lá no Belo Oriente, vamos reunir nossa turma para comemorar...”. Estava decidido! Revivendo o mesmo espírito da saída do nosso primeiro jeguinho em 1997, muitos foram se achegando, compartilhando daquela idéia, indo atrás do jegue que levava nas suas costas os sonhos que não podem morrer. Desta vez, o nosso Jeguinho teria entre seus foliões os amigos de Belo Horizonte que fariam uma longa viagem para segui-lo. Da nossa capital parti para Belo Oriente para organizar a nossa casa e receber os amigos. No dia combinado chegaram todos, irmanados pela amizade e os sonhos que só os jovens têm. Na estação ferroviária vi descer um por um, cada um com um sorriso diferente, com uma alegria que só os meninos têm. Estavam rejuvenescidos pelo momento, como se fizessem uma viagem para dentro deles mesmo, dentro dos sonhos adormecidos. Quase não pude suportar a alegria ao vê-los ali, meu amigo Dival estava comigo afinal, amigo é para estas coisas... No ônibus que conduzia a turma até à cidade, estavam todos, conhecendo um pouquinho do meu Belo Oriente, indo da estação ferroviária para a estação festiva, ouvindo as sandices do Tião Galinha que começou com a festa bem antes de nós. Em Belo Oriente houve um encontro de belezas: a juventude de Belo Horizonte sendo recepcionada pela juventude de Belo Oriente. Era um dia de festa, de viver os sonhos impossíveis. Pensei eternizar aquele momento para todo sempre, tê-lo eternamente ao meu lado. Amigos e amigas, todos comigo. No trio elétrico subiram todos, conhecendo a pequena cidade. U jeguerê!... Uma voz do sul do Brasil falava ao microfone do time do coração em cima do trio, o céu do Brasil azul-anil ouvia, pensei: somos grandes, bem maiores que nossas diferenças... Já era noite quando o nosso Jeguinho saiu pelas ruas da cidade, atrás deles todos éramos iguais, meninos, meninas, moços e não tão moços todos atrás do jegue... Assim, foi a nossa festa, o nosso final de semana dentro do 7º Jegue Elétrico de Belo Oriente. No outro dia, depois da folia, fomos conhecer o Rio Santo Antônio, responsável pela história da cidade. Ali, alguns se banharam, como recebendo uma benzedura, um batismo do espírito belorientino. Já era a hora de voltar, no ônibus que levou a alegria para Belo Oriente, agora a levava de volta para Belo Horizonte. Fomos até a estação ferroviária, onde me despedi de todos. Nesta hora, passou por nós um trem de carga levando nossa riqueza para além fronteira. Um dos amigos contou 158 vagões indo com a nossa propriedade mineral para o estrangeiro. Nós, fazendo uma viagem contrária, conhecendo o nosso interior, para levarmos além fronteiras nossas riquezas dentro da gente... a nossa história verdadeira. Cada um foi entrando no trem
e levando um pouquinho da minha felicidade com ele. Tio Américo
comentou: “que povo bonito”, Francisco arrematou: “até parece que
já éramos amigos...”. Pensei: os corações são
sempre amigos, os egos é que são rivais. O trem começa
a andar e uma mãozinha lá de dentro acena, como um último
adeus... A inesperada lágrima cai, levando com ela o pensamento:
como é bom ter amigos... como é bom ser amigo...
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