| O governo Lula começa
a acabar
Laerte Braga, 12 abril 2003 O governo Lula é pura contradição. Desde a primeira e maior delas, a política econômica segundo os moldes do FMI e do sistema financeiro internacional, até pequenas, ou aparentemente pequenas, questões como a permissão de propaganda de cigarros no grande prêmio de Fórmula Um, para atender à prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, uma das principais cabeças do esquema paulista que domina o Planalto. Começou pela formação do Ministério. Ao tomar conhecimento dos nomes, o editor César Benjamin, um dos mais lúcidos intelectuais brasileiros da atualidade, foi profético: “o principal para a direita, os adereços para a esquerda”. No mesmo dia que fez essa afirmação mencionou os ministros Furlan e Rodrigues, como ligados ao mercado do transgênico. Foi através de medida provisória, injustificável, que o governo Lula permitiu a comercialização de soja transgênica, a pretexto de não causar prejuízos a empresas que, infringindo a lei, haviam promovido tal cultura. O trio de mentores e operadores políticos de Lula, os ministros José Dirceu e Antônio Palocci e o presidente nacional do PT, José Genoíno, arquitetaram agora a gota que entorna o copo transbordando de decepções: a decisão da executiva nacional do partido de abrir processo para a expulsão dos ditos “radicais”. Ato de obscurantismo político, lamentável e deplorável. O PT, na visão dessa gente, ou pensa como eles pensam, sem discutir, ou quem discute, cai fora. É o antipartido se observada a sua história. O governo é andrógino. De sexo indefinido. Pratica a mesma política do “é dando que se recebe”, troca de votos de deputados e senadores, por verbas, cargos e vantagens. Talvez tenha sido por isso que o jornalista Élio Gaspari, independente, publicou em sua coluna/página do domingo dia 11 de maio, um retrato montagem de Lula com aparência de FHC. Um ser híbrido, sem definição. Um e outro têm sido quase que a mesma coisa. Se corrupção não existe na figura presidencial, atos imorais têm acontecido. A reforma da Previdência é um escárnio. Um achaque contra trabalhadores. Uma violência contra inativos. A reforma Tributária segue o raciocínio neoliberal que trabalha com aumentos e aumentos de receita para metas absurdas de superávit primário, sem qualquer política de desenvolvimento, ou de espectro social, dentre as que historicamente eram propostas e defendidas pelo PT, mudança de modelo. Pura subserviência, puro servilismo. A impressão que Lula causa é que caiu numa dessas valas em que você nada, nada, sem sair do lugar. E sem ter direção, ou não saber o que fazer. Se a política externa tenta sinalizar reação aos interesses norte-americanos e ao processo de globalização ditado de cima para baixo, no caso da ALCA, fica-se sem saber o que quer o governo. Parece acreditar que seja
possível dividir a jaula com o leão. A comida com o leão.
E dormir em paz, sem riscos de ser devorado. Já está sendo
devorado. O episódio do perdão a grandes devedores da Previdência,
muitos dos quais operam com previdência privada, no caso do Itaú,
é vergonhoso. Parece coisa de FHC.
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