Caminhos da glória
Paul Krugman, NY Times

O dogma central da política americana atualmente é que George W. Bush, independentemente de seus fracassos, tem sido um líder eficaz na luta contra o terrorismo. No entanto, quanto mais nos informamos sobre o estado do mundo, menos acreditamos nesse dogma. A guerra do Iraque, em particular, não fez nada para deixar os EUA mais seguros -de fato, fez um favor aos terroristas.

Como vai a guerra contra o terrorismo? Todos sabem sobre os atentados de Riad. Mas houve outro desdobramento nesta semana: o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, respeitado grupo britânico de pesquisa, reconhecido como imparcial em relação a Bush, declarou que a Al Qaeda está "igualmente perigosa e mais insidiosa" do que antes de 11 de setembro. E lá se vão as alegações de que colocamos os terroristas para correr.

O governo Bush, ainda assim, não está fazendo o melhor possível para combater o terrorismo? Não. A campanha do governo contra o terrorismo me faz lembrar da realidade dos estúdios de televisão: Os sets de filmagem, em geral, ficam no meio de um galpão deprimente e são feitos de cartolina e fita gomada. Os canais de televisão tomam o maior cuidado com o que os telespectadores vêem nas telas, mas gastam o menos possível com tudo que fica fora das câmeras.

E assim tem sido com a campanha contra o terrorismo. Bush faz poses heróicas na televisão, mas seu governo negligencia tudo que não é fotogênico.

Já escrevi sobre a impressionante recusa do governo Bush em custear até as menores medidas para proteger a nação contra futuros ataques - medidas que tornariam os portos, usinas atômicas e químicas e outras instalações seguras. 

A negligência da segurança interna reflete-se na incapacidade do governo de dar prosseguimento às operações no exterior, uma vez terminada a parte mais televisiva. A derrubada do Taleban foi uma verdadeira vitória - poder-se-ia argumentar que foi nossa única vitória importante contra o terrorismo. Mas, assim que Cabul caiu, o governo perdeu o interesse. Agora, a maior parte do Afeganistão está sob controle de senhores de guerra, o governo Karzai mal está se mantendo e o Taleban está preparando sua volta.

Senador Bob Graham fez uma acusação ainda mais dura: que a Al Qaeda estava em apuros há um ano, mas foi capaz de se recuperar porque o governo desviou recursos militares e de inteligência para o Iraque. Como ex-diretor do Comitê de Inteligência do Senado, ele está em posição de saber. E antes de menosprezar sua opinião como partidarismo, lembre-se que quando soou esse alarme, no último outono, seus colegas republicanos o apoiaram: "Ele está absolutamente certo", disse o senador Richard Shelby, que teve acesso às mesmas informações.

Graham também alega que um relatório confidencial do Congresso revela que "as lições de 11 de setembro não estão sendo aplicadas hoje" e acusa o governo de acobertamento.

Mesmo assim, nós derrubamos Saddam. Isso não nos deixa mais seguros? Bem, não.

Saddam não era uma ameaça aos EUA. Ele não tinha ligações importantes como terrorismo e a principal equipe americana que procurou armas de destruição em massa no Iraque já fez as malas e foi para casa. Enquanto isso, como de costume, o governo perdeu a concentração no assunto assim que a cobertura da televisão diminuiu. O primeiro resultado foi uma orgia de pilhagens -inclusive a pilhagem de lixo atômico que, por incrível que pareça, não conseguimos proteger. Alguém quer bombas sujas? De acordo com um artigo no The New Republic, facções iraquianas armadas estão se preparando para uma guerra civil.

Isso nos deixa diante de exatamente o mesmo dilema que os críticos da guerra temiam. Se deixarmos o Iraque rápido demais, o país poderá tornar-se uma versão maior e mais perigosa de Afeganistão. Mas, se ficarmos por muito tempo, arriscamos nos tornar "uma força de ocupação em uma terra terrivelmente hostil", como disse um comentador. É exatamente o tipo de instrumento de recrutamento que a Al Qaeda precisa. Quem disse isso? Presidente George H.W. Bush, explicando sua decisão de não continuar em direção a Bagdá, em 1991.

Massoud Barzani, líder curdo, está preocupado que, como os americanos não conseguem dar continuidade aos seus esforços, "essa maravilhosa vitória que tivemos tornar-se-á um atoleiro".

A verdade é que a busca pela glória televisiva -que levou o governo Bush a tirar sua atenção da Al Qaeda e a comprar uma briga com um regime que, apesar de cruel, não era uma ameaça- acabou nos trazendo mais riscos.

Tradução: Deborah Weinberg
Publicado em 16 maio 2003
 


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